Foto: Favela em Marília cuja realidade não aparece nas redes sociais dos políticos da cidade,
Ao completar 97 anos, Marília é celebrada em discursos oficiais e, cada vez mais, em vídeos curtos que a apresentam como vitrine de prosperidade. Nas redes, sobretudo em plataformas como o TikTok, a cidade surge limpa, dinâmica, promissora — quase um cartão-postal permanente. Mas essa narrativa, repetida à exaustão, não dá conta da complexidade (nem das contradições) vividas fora do enquadramento da câmera.
A cidade exibida nesses conteúdos não é, para muitos, a mesma enfrentada no cotidiano. Há uma distância visível entre a Marília “editada” para as redes sociais e a Marília dos bairros periféricos, onde a precariedade de serviços públicos — especialmente saúde e assistência — continua sendo motivo de queixas recorrentes. Filas em unidades básicas, dificuldade de acesso a medicamentos e atendimento especializado insuficiente são problemas apontados por moradores que não aparecem nos vídeos de 30 segundos.
Também não aparece, com a mesma frequência, a desigualdade que marca o tecido urbano. Enquanto novos empreendimentos imobiliários se expandem e condomínios de alto padrão crescem rapidamente, uma parcela significativa da população convive com renda instável, informalidade e falta de oportunidades. Essa coexistência de realidades tão distintas não é exclusiva de Marília, mas se torna mais evidente quando o contraste é suavizado — ou ignorado — na comunicação pública.
O discurso de progresso, quando não acompanhado de transparência e políticas eficazes, pode funcionar mais como estratégia de imagem do que como retrato fiel. A crítica que emerge não é à divulgação de aspectos positivos da cidade — algo legítimo —, mas ao desequilíbrio: mostrar apenas o que funciona e silenciar o que precisa ser enfrentado.
Há ainda um ponto sensível no debate local: a percepção de que decisões políticas e administrativas nem sempre refletem as prioridades da maioria. Servidores públicos, trabalhadores do comércio e da indústria, mães que dependem da rede pública e famílias que necessitam de atenção especial frequentemente relatam sentir-se pouco representados nas políticas implementadas. Quando isso se soma a estruturas políticas duradouras e pouco renovadas, cresce a sensação de distanciamento entre quem governa e quem vive a cidade no dia a dia.
A menção a bênçãos e celebrações simbólicas — como a presença de lideranças religiosas em eventos oficiais — pode ter valor cultural e afetivo. Mas, para parte da população, elas não substituem respostas concretas a demandas urgentes. Em contextos de dificuldade, gestos simbólicos tendem a ser vistos como insuficientes diante de problemas estruturais.
Aos 97 anos, Marília não é uma cidade única e homogênea: é um conjunto de realidades sobrepostas. Há, sim, desenvolvimento, investimento e iniciativas positivas. Mas há também carências persistentes, desigualdades profundas e desafios que não cabem em vídeos curtos.
Reconhecer isso não diminui a cidade — ao contrário, é condição para que ela avance. Porque uma cidade que se enxerga como realmente é, com suas virtudes e suas falhas, tem mais chances de construir um futuro menos desigual do que aquela que prefere acreditar apenas na própria imagem.


