Três assassinatos e uma morte após agressão expõem uma cidade assustada, enquanto a periferia enfrenta abandono e a política parece viver em outro mundo
MARÍLIA — Quatro mortes violentas em aproximadamente 48 horas.
Três assassinatos.
E uma quarta vítima que morreu depois de permanecer por cerca de um mês lutando contra as consequências de uma agressão sofrida anteriormente.
Marília chega a mais um fim de semana marcada pelo sangue, pelo medo e por uma pergunta que deveria incomodar profundamente quem ocupa cargos públicos:
que cidade é essa que estamos construindo?
O último episódio, envolvendo um homem morto a tiros dentro de um bar na zona sul, é mais um capítulo de uma sequência que começa a ultrapassar os limites do que poderia ser considerado uma sucessão ocasional de ocorrências policiais.
A Polícia Civil investiga os crimes, como determina a lei. Mas a sociedade precisa fazer uma pergunta maior:
por que a violência está encontrando tanto espaço para crescer?
A BOLHA DA CRIMINALIDADE EXPLODIU
Não se trata apenas de contar cadáveres.
Atrás de cada número existe uma família destruída, uma mãe chorando, filhos sem pai, pais enterrando filhos, amigos tentando compreender uma morte que muitas vezes acontece em segundos.
O assassinato ocorrido em um bar da zona sul é emblemático de uma realidade assustadora: lugares onde pessoas deveriam estar vivendo momentos comuns acabam transformados em cenários de morte.
E quando três homicídios acontecem em um intervalo tão curto, somados a uma morte decorrente de agressão anterior, não basta registrar a ocorrência.
É preciso discutir o ambiente social que está produzindo tanta violência.
ENQUANTO ISSO, A POLÍTICA SEGUE EM SUA BOLHA
Existe uma Marília que aparece nos discursos oficiais.
Uma Marília de slogans.
De campanhas publicitárias.
De inaugurações.
De fotografias sorridentes.
De autoridades discursando sobre uma cidade moderna, acolhedora e que “cuida”.
Mas existe outra Marília.
A Marília dos bairros onde famílias contam moedas para comprar comida.
A Marília de trabalhadores que enfrentam transporte precário.
A Marília de jovens sem perspectiva.
A Marília das mães que têm medo de deixar os filhos na rua.
A Marília onde a violência chega antes das políticas públicas.
Essa Marília não cabe nos vídeos institucionais.
E talvez seja justamente essa a cidade que deveria estar no centro das preocupações do poder público.
“MARÍLIA QUE CUIDA”?
Cuidar de quem?
Essa é uma pergunta incômoda, mas necessária.
Porque não existe cuidado quando uma parcela da população vive permanentemente exposta à violência.
Não existe cuidado quando famílias pobres convivem com insegurança, desemprego, fome, abandono e falta de oportunidades.
Não existe cuidado quando o poder público comemora números e resultados enquanto determinados bairros continuam carregando o peso da exclusão social.
E não existe cuidado quando a segurança pública só entra no debate depois que alguém morreu.
O slogan pode ser bonito.
A propaganda pode ser bonita.
Mas a realidade não pode ser maquiada por slogan.
A PERIFERIA GEME. A ELITE ACUMULA.
Enquanto a população mais pobre luta diariamente para sobreviver, existe uma parcela privilegiada da cidade que continua acumulando patrimônio, especulando, investindo e ampliando seus ganhos.
Não há nada de errado em ganhar dinheiro honestamente.
O problema começa quando uma cidade produz riqueza para poucos e insegurança para muitos.
Quando a prosperidade não chega à periferia.
Quando oportunidades não chegam aos jovens.
Quando educação, cultura, esporte, emprego e assistência social não conseguem competir com o poder de atração da criminalidade.
A violência não nasce do nada.
Ela possui causas.
Possui território.
Possui contexto social.
Possui vítimas preferenciais.
E ignorar essas causas é apenas esperar o próximo cadáver.
POLÍTICOS PRECISAM SAIR DA BOLHA
Enquanto quatro famílias enfrentam o luto, a política não pode continuar funcionando como se nada estivesse acontecendo.
Não basta aparecer depois da tragédia.
Não basta publicar nota de pesar.
Não basta dizer que “as autoridades estão investigando”.
A população precisa saber:
o que está sendo feito para impedir que a próxima morte aconteça?
Quantas políticas de prevenção estão funcionando?
Quantos jovens estão sendo alcançados por programas de esporte e cultura?
Quantas famílias vulneráveis recebem acompanhamento?
Como estão os bairros mais afetados pela violência?
Qual é a estratégia municipal de prevenção?
Como está a integração com as forças estaduais de segurança?
E, sobretudo:
quem está olhando para a raiz do problema?
SEGURANÇA NÃO É APENAS POLÍCIA
Polícia é fundamental.
Investigação é fundamental.
Prisão de criminosos é fundamental.
Mas segurança pública não começa quando o crime acontece.
Ela começa muito antes.
Começa na escola.
No emprego.
Na iluminação pública.
Na urbanização.
Na assistência social.
No acesso à cultura.
No esporte.
Na saúde mental.
Na proteção das famílias.
Na presença do Estado nos bairros.
Uma cidade que abandona seus territórios mais vulneráveis não pode se surpreender quando a violência encontra espaço para se instalar.
QUATRO MORTES NÃO PODEM VIRAR ESTATÍSTICA
Esse talvez seja o maior perigo.
A morte virar número.
“Mais um homicídio.”
“Mais uma ocorrência.”
“Mais uma vítima.”
E amanhã, outra.
Depois, outra.
Até que a sociedade se acostume.
Nós não podemos nos acostumar.
Cada morte violenta representa uma derrota coletiva.
E quatro mortes em um intervalo tão curto deveriam produzir muito mais do que manchetes policiais.
Deveriam produzir indignação.
Deveriam produzir cobrança.
Deveriam produzir planejamento.
Deveriam produzir ação.
A CIDADE PRECISA OLHAR PARA O ESPELHO
Marília precisa decidir que tipo de cidade quer ser.
Uma cidade que vende a imagem de prosperidade enquanto esconde suas feridas?
Ou uma cidade capaz de reconhecer seus problemas e enfrentá-los?
Porque não adianta repetir que Marília “cuida” se milhares de pessoas sentem que estão abandonadas.
Cuidar não é slogan.
Cuidar é política pública.
Cuidar é prevenção.
Cuidar é oportunidade.
Cuidar é segurança.
Cuidar é não permitir que a pobreza seja tratada como paisagem.
Cuidar é impedir que a violência se torne rotina.
O SANGUE NAS RUAS EXIGE RESPOSTAS
Os quatro mortos não voltarão.
As famílias terão de aprender a viver com ausências que jamais deveriam existir.
Agora cabe às autoridades investigar cada crime, identificar os responsáveis e garantir que sejam julgados dentro da lei.
Mas cabe também ao poder público olhar para além dos inquéritos.
Porque prender quem matou é necessário.
Impedir que o próximo homicídio aconteça é ainda mais importante.
Marília não precisa de mais slogans.
Precisa de respostas.
Precisa de presença do Estado.
Precisa de políticas sociais efetivas.
Precisa de segurança.
Precisa de oportunidades.
Precisa de uma política que enxergue a periferia não apenas durante as eleições.
Porque enquanto alguns se deleitam em privilégios, benesses e disputas de poder, há famílias contando os mortos.
E uma cidade que permite que seus mais vulneráveis sejam abandonados não pode continuar dizendo, sem constrangimento:
“Marília que cuida e é cuidada”.
A realidade está gritando outra coisa.
MARÍLIA ESTÁ COM MEDO.
E quem governa precisa finalmente ouvir.


