O período eleitoral no Brasil e nos Estados Unidos, a guerra em curso no Oriente Médio e a baixa articulação na Casa Branca criam um ambiente inóspito para uma negociação entre os dois países com o objetivo de reverter as tarifas anunciadas pelos EUA contra produtos brasileiros.
Na avaliação de especialistas consultados pelos Metrópoles, os países enfrentam dinâmicas internas enfrentadas tanto no Brasil, quanto nos Estados Unidos, colocam essas negociações em segundo plano.
Na última semana, o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês) concluiu duas investigações comerciais contra o Brasil e sugeriu novas taxas ao país: 25% devido a práticas comerciais desleais e 12,5% por trabalho forçado na mão de obra brasileira.
Embora o governo norte-americano tenha dado indícios de que as argumentações brasileiras não foram levadas em consideração, o Palácio do Planalto ainda aposta no diálogo com a Casa Branca para evitar a aplicação de ao menos uma das tarifas. A avaliação é de que a taxa de 25% tem mais chance de ser revertida do que a de valor mais baixo.
Período eleitoral
Para Welber Barral, que ex-secretário do Comércio Exterior do Brasil, órgão que está associado ao Ministério do Desenvolvimento Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), o período eleitoral que os dois países atravessam neste momento e nos próximos meses, é a principal adversidade. Os EUA passam por eleições legislativas neste ano e o tema preocupa Donald Trump.
Em novembro o eleitor norte-americano vai às urnas para eleger “deputados” e senadores. O cenário que se desenha é desanimador para a atual gestão — caso eleito mais democratas, Trump tende sofrer derrotas no Congresso do país. Faltando apenas cinco meses para o pleito, o mandatário norte-americano tem investido em uma campanha para promover candidatos republicanos.
O mesmo ocorre no Brasil: em outubro o eleitor brasileiro elege presidente, senador, deputado e governador, além de outros cargos locais. Neste sentido, enquanto agentes políticos se articulam com foco na corrida eleitoral, temas que dependem do diálogo entre os poderes ganham tons de dificuldade, conforme avalia Barral.
“Do lado brasileiro, em um ano de campanha eleitoral, há dificuldade de articulação. Tem coisas que os EUA querem negociar, é o caso de minerais críticos, comércio digital, a questão das big techs, taxa de streaming, liberdade de expressão, a responsabilidade das redes sociais… São temas que sequer dependem só do Executivo. Tem um monte de projetos que estão no Congresso Nacional sobre redes sociais, há decisões do Supremo [o STF] sobre esses temas e, em um ano eleitoral, é difícil conseguir uma articulação dentro do Brasil para coordenar todos esses atores [dos Três Poderes]”, avalia.
Negociação Brasil e EUA
- O Brasil tenta negociar com os Estados Unidos uma maneira de reverter o anúncio das taxas contra produtos brasileiros que podem ser aplicadas ainda nas próximas semanas.
- As taxas são referentes a investigações concluídas pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês), que sugere tarifas de 25% ao Brasil por práticas desleais de comércio e 12,5% por uma investigação sobre trabalho forçado.
- O governo brasileiro tem esperança de que pode evitar, pelo menos, a imposição das tarifas mais altas em negociações com o país.
- Ao Metrópoles, Welber Barral acredita que o momento político vivido em ambos os países não criam condições para avançar em um acordo.
Crise geopolítica
O momento político dos Estados Unidos, contudo, não passa apenas pelas eleições. O professor Elton Gomes, do departamento de Ciência Política da Universidade Federal do Piauí (UFPI), relembra a atual crise geopolítica em curso no mundo, da qual os Estados Unidos de Donald Trump é um dos protagonistas.
“Nos aspectos mais fundamentais, é preciso pontuar que o momento não é favorável por causa do geopolítico conflituoso no cenário internacional e os protagonistas que estão associados a eles. Tudo isso coloca a temática do comércio exterior em um segundo plano”, avalia o docente.
Donald Trump tem se debruçado em desdobramentos da guerra no Oriente Médio, entre Israel e Irã. O conflito teve início depois que forças militares americanas e israeleses realizaram um ataque coordenado contra Teerã.
O republicano tem buscado por um acordo entre as partes para colocar um fim no conflito, mas, até o momento, não obteve sucesso. A atuação norte-americana em um conflito no Oriente Médio coloca Trump em uma posição desconfortável com a população do país — especialmente neste momento que o republicano corre para obter ganhos da guerra até as eleições de novembro.
Ruídos na articulação na (e com a) Casa Branca
Ainda segundo Barral, há outros dois fatores que dificultam uma negociação do Brasil com os Estados Unidos. A primeira delas, aponta o especialista, diz respeito à dinâmica interna da Casa Branca. “O próprio Trump promove concorrência entre as agências, então tem uma falta de articulação dentro delas e isso dificulta uma coordenação”, avalia Barral.
Essa falta de articulação interna, na percepção do analista, dificulta o diálogo com o Brasil, o que cria um ruído entre os dois países. Barral acredita ainda que a desinformação em relação ao Brasil também favorece para a falha de comunicação entre as duas partes.
“O Departamento de Estado tem a visão do Marco Rubio sobre o Brasil e o Departamento de Comércio tem a visão de Wall Street. A percepção de fundos internacionais que investiram no Brasil e que tiveram problema com o Master, por exemplo. Mas o Master é uma exceção, não é a regra. Há um desconhecimento e desinformação sobre o Brasil. Muitas vezes o país é misturado com a situação da América Latina“, avalia Barral.
O ex-secretário de comércio exterior atribui essa percepção à pouca presença — governamental e empresarial — do Brasil nos Estados Unidos. “O Brasil se vende mal. Há a avaliação de que o Brasil sempre foi comprado, vieram comprar o Pau Brasil, vieram comprar nosso açúcar… a gente nunca precisou se vender, o que nos coloca em desvantagem em relação a outros países nesse quesito”, cita.
Em um dos exemplos, Barral cita o fato de os americanos associarem o café consumido nos Estados Unidos à Colômbia, mas não ao Brasil. O mesmo ocorre com o suco de laranja, que tampouco é associado ao Brasil, embora o país seja o principal exportador de laranja aos EUA.
Todos esses são fatores que, de acordo com Barral, criam um cenário pouco favorável para os dois países encontrarem uma solução diplomática para dos Estados Unidos em aplicar tarifas ao Brasil.
Mas há esperança
Apesar do momento pouco positivo, Elton Gomes acredita que o Brasil possui atrativos que são capazes de levar os Estados Unidos para uma negociação. O professor da UFPI relembra que o governo brasileiro, junto a interlocução de setores empresariais, já reverteu tarifas em outro momento.
O analista, pontua, contudo, a necessidade de cautela quanto às taxas. “Essas tarifas, diferentemente das anunciadas em 2025, são baseadas em termos mais técnicos, mas a decisão de revertê-las ainda é política“, pontua.
“Desde que voltou ao poder para este segundo mandato, Trump tem como linha da condução das relações exteriores a imposição ou ameaça de imposição como instrumento de pressão política. Com isso ele cria uma ideia de negociação hostil, em que se coloca um lance muito alto para chegar a valores razoáveis com renegociações”, avalia o docente.
As taxas ainda não foram efetivamente impostas e o governo trabalha com a possibilidade delas não serem implementadas até o dia 15 de julho, data limite para o governo norte-americano concluir diretrizes internas para aplicação das medidas. Até esta data, o governo do presidente Lula aposta no diálogo com a Casa Branca.
Fonte: Metrópoles





