
A história das grandes tragédias coletivas costuma ser marcada pelo luto, pela busca por justiça e pela promessa solene de que “nunca mais” aquilo se repetirá. No entanto, o Brasil contemporâneo convive com uma fratura profunda e desconcertante. O saldo trágico da gestão da pandemia de Covid-19 — que ceifou a vida de mais de 700 mil brasileiros sob a condução errática, negacionista e cruel do governo de Jair Bolsonaro — não serviu apenas como advertência; ele paradoxalmente se transformou no combustível político de um movimento que continua a mobilizar dezenas de milhões de eleitores.
O fenômeno expõe uma dinâmica sombria: o flerte contínuo com o bolsonarismo e suas raízes autoritárias revela que a necropolítica praticada durante a crise sanitária não é vista por uma fatia expressiva da população como um erro a ser evitado, mas como um traço de atração.
A Crueldade Institucionalizada como Método
Durante os anos mais críticos da crise sanitária, o Brasil assistiu estarrecido a um repertório inédito de crueldade institucional:
- O desdém pela vida: A recusa deliberada em negociar vacinas em tempo hábil, a promoção de medicamentos ineficazes (como a cloroquina) e o escárnio público diante das vítimas (“Quer que eu faça o quê? Não sou coveiro”) tornaram-se marcas registradas do poder central.
- A naturalização do luto: A morte em massa deixou de ser uma tragédia humanitária e passou a ser tratada como um dano colateral aceitável em nome de um projeto político de confronto ideológico com a ciência e as instituições.
Essa gestão não foi fruto de mera incompetência administrativa; tratou-se de uma política de morte deliberada — o que teóricos chamam de necropolítica —, onde o Estado decide quem deve viver e quem pode morrer com base em cálculos de conveniência política.
O Espectro de 56 Milhões: A Tragédia como Objeto de Desejo
O aspecto mais perturbador dessa equação é a resiliência eleitoral do projeto. Nas urnas, parcelas massivas do eleitorado — que somam dezenas de milhões de votos em torno do espectro bolsonarista — demonstraram não apenas tolerar, mas validar esse histórico de barbárie.
Esse apoio contínuo alimenta um espectro de sombras sobre o país por motivos profundos:
- A Identificação com a Violência: Para uma base radicalizada, a crueldade contra o “outro” (seja o doente, o vulnerável ou o opositor político) é interpretada como força, autenticidade e rebeldia contra o “sistema”.
- O Mecanismo da Negação Coletiva: Para não admitir o próprio erro de julgamento ou o apoio a um projeto desastroso, parte do eleitorado prefere reescrever a história, normalizando o absurdo e desacreditando os dados científicos e o luto das famílias enlutadas.
- O Apelo Autoritário: A atração por esse modelo reflete o desejo latente de reviver uma ordem onde a empatia é vista como fraqueza e a opressão é celebrada como virtude.
O Perigo do Revisionismo Macabro
Almejar reviver essa tragédia — seja por meio da volta ao poder de lideranças que instrumentalizaram a morte, seja pela banalização contínua de discursos anticientíficos e desumanizadores — coloca o Brasil em um permanente estado de perigo institucional e ético.
Um país que naturaliza 700 mil mortes evitáveis e transforma a crueldade em plataforma eleitoral abre mão de sua bússola moral mais básica. O bolsonarismo pandêmico não foi apenas um capítulo do passado; ele permanece como um espelho incômodo das fraturas de uma sociedade que, seduzida pelo extremismo, flerta perigosamente com o abismo da própria destruição.


