DRA. ANGELICA MASSON*
O IBGE divulgou semana passada, no dia 18/09/2026, um estudo que o Brasil precisa encarar: 14,4 milhões de pessoas com deficiência, cerca de 7% da população, seguem enfrentando barreiras para estudar, trabalhar e viver com dignidade.
Educação: a exclusão começa cedo
Entre os jovens com deficiência de 15 a 29 anos, 12,2% não sabem ler e escrever. Entre os demais, a taxa é de apenas 1%. Entre pessoas com limitações intelectuais, o analfabetismo ultrapassa 40%.
Não basta permitir a matrícula. Sem acessibilidade, profissionais de apoio e acompanhamento da aprendizagem, a escola vira apenas um espaço físico. E a criança com deficiência chega à vida adulta sem as mesmas oportunidades.
Trabalho e renda: o abismo
No mercado de trabalho, só 29% das pessoas com deficiência estão ocupadas, contra 55,8% das demais. Entre as mulheres com deficiência, o índice cai para 24,4%.
O rendimento médio também é menor: R$ 2.053, ante R$ 2.890. E apenas 2,5% dos cargos gerenciais são ocupados por pessoas com deficiência. Contratar não basta: sem permanência, igualdade salarial e crescimento, a inclusão fica no papel.
Ciclo da pobreza
Um terço das pessoas com deficiência vive abaixo da linha de pobreza. Entre as crianças, o percentual chega a 60,9% — contra 52,5% das crianças sem deficiência.
Penso na mãe que precisa abandonar o trabalho para cuidar do filho, enquanto as despesas com necessidade terapias e medicamentos só aumentam e claro, não são atendidas. A deficiência não gera pobreza sozinha: a pobreza nasce quando a escola não inclui, a saúde não atende e o mercado não oferece oportunidades.
A Lei Brasileira de Inclusão garante educação, trabalho e acessibilidade. A Constituição assegura saúde e proteção social. Os direitos existem — e não se efetivam.
No fim, os dados do IBGE têm sim seu mérito: transformam a invisibilidade em números. Mas números, sozinhos, não mudam vidas. Enquanto a inclusão depender de quem insiste em exigir o que já é lei, o abismo vai continuar.
A pergunta que fica: até quando vamos aceitar que o direito exista apenas no papel?
Dra. Angélica Masson é advogada, especialista em Direito da Pessoa com Deficiência e Direito à Saúde, e procuradora municipal. Formada em Direito e História pela UENP, é mãe atípica de um garotinho autista e diabético tipo 1. Mãe atípica e advogada: escreve sobre os direitos de quem enfrenta, na prática, as barreiras que a deficiência impõe. Contato @angelicamasson.adv


