Por Cleber Lourenço
Em julho de 2021, Jair Bolsonaro entregou a Ciro Nogueira o que chamou de “alma do governo”. A nomeação do senador do PP para a Casa Civil simbolizou a rendição do então presidente ao Centrão, bloco que Bolsonaro havia atacado na campanha de 2018, mas ao qual recorreu para se blindar de pedidos de impeachment, conter os danos políticos da CPI da Covid e reorganizar sua base para a eleição de 2022.
Quase cinco anos depois, o mesmo Ciro Nogueira surge no centro de uma nova crise política. Alvo da quinta fase da Operação Compliance Zero, que investiga o esquema envolvendo o Banco Master e o banqueiro Daniel Vorcaro, o senador passou de potencial aliado estratégico a fator de desgaste para o projeto presidencial do senador Flávio Bolsonaro.
Nos bastidores de Brasília, Ciro vinha sendo tratado como uma das principais pontes entre o bolsonarismo e o Centrão para a disputa de 2026. Presidente nacional do Progressistas e um dos articuladores da federação União Progressista, formada por PP e União Brasil, o senador controla uma estrutura considerada essencial para qualquer candidatura competitiva: bancada numerosa, fundo eleitoral bilionário, tempo de televisão, prefeitos e governadores.
A própria federação se tornou um ativo cobiçado pelo entorno de Flávio Bolsonaro. Nos últimos meses, aliados do senador discutiam a possibilidade de aproximar o bolsonarismo da União Progressista ainda no primeiro turno da eleição presidencial.
O nome de Ciro chegou a ser citado como possível vice na chapa encabeçada por Flávio Bolsonaro. A avaliação de aliados era que o senador do PP poderia ajudar o bolsonarismo a ampliar seu trânsito no Congresso e reduzir resistências no empresariado e em setores mais moderados do Centrão. A operação desta quinta-feira (07), porém, alterou o cenário.

Segundo a Polícia Federal, a investigação aponta indícios de que Ciro Nogueira teria utilizado o mandato parlamentar em benefício dos interesses de Daniel Vorcaro e do Banco Master. A PF afirma que o senador teria recebido vantagens indevidas e cita suspeitas envolvendo pagamentos mensais, aquisição societária com deságio, uso de bens de alto valor e custeio de despesas pessoais.
A investigação também aponta que uma emenda apresentada por Ciro Nogueira para ampliar a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) de R$ 250 mil para R$ 1 milhão foi elaborada com participação de integrantes ligados ao Banco Master.
A operação autorizada pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, incluiu mandados de busca e apreensão, além do bloqueio de R$ 18,85 milhões em bens, direitos e valores.
A ofensiva da PF produziu efeito imediato nos bastidores políticos. Aliados de Flávio Bolsonaro passaram a defender distância pública do caso, diante do receio de que o escândalo contamine uma eventual construção de candidatura presidencial. Integrantes do PL avaliam que a aproximação com Ciro e com a União Progressista pode se transformar em munição eleitoral para adversários, especialmente pelo peso que o caso Master ganhou nas últimas semanas.
O problema para o bolsonarismo é que Ciro não é apenas mais um aliado eventual. O senador se tornou, ao longo dos últimos anos, um dos principais operadores políticos da direita no Congresso. Foi ele quem comandou a entrada definitiva do Centrão no coração do governo Bolsonaro. Também foi um dos principais articuladores da sobrevivência política do governo durante a pandemia e nas sucessivas crises entre Planalto, Congresso e Supremo.
Mesmo após a derrota de Bolsonaro em 2022, Ciro manteve influência em Brasília. Continuou controlando o PP, ampliou o peso político da federação União Progressista e preservou trânsito entre setores do empresariado, lideranças do Centrão e integrantes da direita.
A leitura de aliados de Ciro era que ele poderia funcionar como fiador político de uma candidatura mais palatável ao Congresso e ao mercado. Agora, a própria presença do senador passou a representar um risco político.
Em nota, a defesa de Ciro Nogueira afirmou repudiar a operação e negou qualquer irregularidade. Os advogados alegam que o senador jamais praticou atos ilícitos e afirmam que ele está à disposição das autoridades para prestar esclarecimentos.
O caso reacendeu em Brasília uma discussão antiga sobre o modelo de relação entre bancos, Congresso e emendas parlamentares.
Ao longo da última década, Ciro construiu a imagem de operador pragmático, capaz de transitar entre governos distintos sem perder influência. A investigação da PF ameaça justamente esse capital político: a capacidade de atuar como articulador confiável entre o poder econômico, o Congresso e projetos presidenciais.
Para Flávio Bolsonaro, o desgaste ocorre em um momento delicado. Sem Jair Bolsonaro elegível, setores da direita passaram a discutir alternativas para 2026, e a construção de alianças com partidos do Centrão era vista como etapa fundamental para viabilizar uma candidatura competitiva. A operação contra Ciro embaralha esse desenho e cria um novo problema para o entorno bolsonarista: como manter a aproximação com um dos homens mais poderosos do Centrão sem carregar junto o peso político do caso Master?
Fonte: ICL Notícias


