A transição presidencial na Colômbia, marcada para esta sexta-feira (07/08) marca não só a chegada de Abelardo de la Espriella ao poder como também o fim do mandato de Gustavo Petro, após quatro anos de governo marcados por avanços em direitos sociais e alguns conflitos com a oposição, além de uma série de discursos marcantes e uma postura eloquente em favor do combate às mudanças climáticas e em defesa da causa palestina.
Eleito em 2022 como o primeiro presidente de esquerda da Colômbia em décadas, Petro se destacou por algumas leis aprovadas que resultaram na ampliação de direitos dos trabalhadores colombianos e na diversificação e crescimento da economia com maior distribuição de renda.
A medida de maior repercussão foi a reforma trabalhista aprovada em 2025 e que eliminou a modalidade de contrato com pagamento por hora trabalhada, aumentou os adicionais pagos para quem trabalha nos domingos e feriados, obrigou as empresas a transparentarem seus regulamentos internos, regularizou as modalidades de “trabalhos digitais” (serviços prestados através de aplicativos), entre outras mudanças.
O governo de Petro também impulsionou a reforma previdenciária, que estabelece um sistema escalonado para fornecer um bônus de aposentadoria a milhões de idosos sem renda; o Plano de Paz Total, que altera a Lei de Ordem Pública para permitir diálogos simultâneos com grupos armados e quadrilhas do crime organizado; o Plano Nacional de Desenvolvimento: que impõe metas de investimentos em setores estratégicos da economia; e a Lei de Jurisdição Agrária, que cria juízes e tribunais especializados para resolver disputas de terras e proteger os agricultores.
Segundo a acadêmica Amanda Harumy, especialista em Relações Internacionais com doutorado pelo Programa de Pós-Graduação sobre Integração da América Latina, da Universidade de São Paulo (PROLAM-USP), “Petro deixa um grande legado para a história colombiana e da política na América Latina, que vai além dos pontos mais recordados, por serem os mais populares, como o aumento do salário mínimo em 40% e uma reforma trabalhista que ampliou direitos”.
A acadêmica destaca que, com Petro, “a esquerda governou a Colômbia institucionalmente pela primeira vez, e isso foi muito importante, tem uma dimensão histórica e com certeza um legado”.
“O primeiro legado é a construção desse campo progressista, principalmente da defesa do conceito de ‘paz total’, que é inédito na Colômbia, mas também devemos lembrar da reforma previdenciária e da reforma agrária, além do avanço em etapas importantes do processo de paz”, salienta Harumy, que também é secretária executiva da Organização Continental Latino Americana e Caribenha dos Estudantes (OCLAE).
Derrota eleitoral, apesar dos avanços
Sobre a derrota eleitoral da candidatura de Iván Cepeda, representante da coalizão progressista Pacto Histórico, que se apresentava como alternativa de continuidade do governo de Petro, mas que acabou derrotada por Espriella nas urnas, Harumy avalia ser “um sinal de uma disputa regional, latino-americana e principalmente geopolítica”.
“Infelizmente, na eleição da Colômbia, o fator internacional pesou muito, como tem pesado em outros pleitos da região. Também houve certa dificuldade em transferir a popularidade do Petro para Cepeda, figura que tem um outro perfil político”, analisa a acadêmica.
Mandato de Gustavo Petro impulsionou reformas importantes na Colômbia
Presidência da Colômbia
Ainda assim, a cientista política considera que o Pacto Histórico “se consolida politicamente na Colômbia”, pois apesar da derrota na disputa presidencial, “o setor teve um bom resultado nas eleições legislativas, tanto em sua bancada de deputados quanto de senadores, mesmo não alcançando a maioria”.
“Esse setor agora terá um grande desafio, que é encarar essa nova configuração da política colombiana, onde há um campo da extrema direita que se atualizou, enquanto o campo uribista, que é a extrema direita tradicional, está percebendo que pode ser engolido por essa nova extrema direita”, acrescenta.
Ameaças de perseguição política
Harumy também acredita que “o Pacto Histórico tem outro desafio, que é lidar com suas questões internas, reforçar essa frente ampla em um momento de muita fragilidade e possíveis ameaças de perseguição política, e de violações aos direitos humanos”.
A analista política lembra que “essa dinâmica do conflito e da violência política é muito comum na Colômbia”, país que já viveu décadas de guerra civil com diversas ondas de assassinatos contra líderes partidários – a grande maioria figuras de esquerda – e líderes de movimentos sociais.
A possibilidade de que o próprio Gustavo Petro seja alvo de uma onda persecutória tem sido denunciada inclusive pelo presidenciável da coalizão, Iván Cepeda, que alertou para a possibilidade de o futuro presidente Abelardo de la Espriella encabeçar operações de lawfare contra o líder progressista e contra setores que façam oposição ao seu governo.
Segundo Harumy, a derrocada de Petro interessa não só ao futuro presidente colombiano como também ao governo dos Estados Unidos. “Ele (Petro” é hoje uma voz de contraposição à política promovida por Donald Trump e seu secretário de Estado, Marco Rubio, tanto ideologicamente quanto materialmente”, conclui a acadêmica.
A especialista lembra de algumas das causas defendidas por Petro a nível internacional que incomodaram a Casa Branca, como o combate às mudanças climáticas e, principalmente, a defesa do povo palestino: o líder progressista colombiano foi um dos mais eloquentes denunciantes dos crimes cometidos por Israel contra o povo palestino em Gaza, especialmente em suas quatro passagens pela Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU).
Em setembro de 2025, durante sua última participação no evento da ONU em Nova York, Petro chegou a propor a criação de uma força-tarefa da própria entidade para deter o que classificou como “genocídio palestino” – o colombiano é um dos poucos líderes mundiais que costuma usar esse termo para definir o massacre cometido pelas forças israelenses em Gaza desde outubro de 2023 – e prometeu que ele mesmo estaria disposto a pegar em armas e participar presencialmente da iniciativa.
Tal declaração, junto com sua participação de um ato político pró-Palestina em Nova York junto ao músico britânico Roger Waters, fizeram com que, dias depois, o governo dos Estados Unidos revogasse seu visto no país.



