Correr de um avião quando se é criança não deveria ser um gesto de sobrevivência, mas, para Marta Aparecida Serpa, foi. Ela recordou quando correu com medo das asas de metal que sobrevoaram o acampamento de Salto do Jacuí, no interior do Rio Grande do Sul, espalhando uma nuvem invisível e asfixiante de veneno sobre a terra, as lonas e as pessoas.
Quase quatro décadas depois, nas dependências do Instituto de Educação Josué de Castro, no Assentamento Filhos de Sepé, em Viamão (RS), Serpa, hoje professora e assentada, faz memória. Ao olhar para trás, percebe que nunca havia conseguido sentar com os próprios filhos, hoje com mais de 30 anos, para narrar os detalhes daquele terror.
“Sinto uma espécie de recompensa ao ver que alguém finalmente está olhando para esse assunto”, afirma.
A memória que ela guardou por quase quatro décadas agora encontra eco institucional. Na quarta-feira (14), em Viamão, foi realizado o seminário “Massacres e Impunidade no Campo Brasileiro”, desenvolvido em parceria entre a Secretaria Nacional de Acesso à Justiça, do Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP), a Universidade de Brasília (UnB) e a Comissão Pastoral da Terra (CPT).
Longe de ser apenas um exercício acadêmico de análise de estatísticas, o seminário teve como horizonte central confrontar a inércia do Estado e cobrar políticas públicas efetivas para assegurar proteção, terra e dignidade às comunidades tradicionais e camponesas.
No centro do debate no Rio Grande do Sul estiveram dois episódios emblemáticos, marcados na história da luta agrária do estado: o massacre no Trevo de Sarandi, em 1987, e o envenenamento e as violências no acampamento de Salto do Jacuí, em 1989.
O contexto dessas lutas remonta a momentos de intensa mobilização camponesa. O mês de março de 1986, por exemplo, foi marcado por manifestações de aproximadamente 300 mil pequenos agricultores gaúchos contra as altas taxas de juros e a indefinição da política agrícola do governo.
Foi nesse contexto de mobilização que, no dia 31 de março de 1987, durante o bloqueio da BR-386, no Trevo de Sarandi, ocorreu o episódio em que um caminhão teria perdido os freios, ferindo gravemente vários agricultores e matando três: Lari Grosseli, Vitalino More e Roseli Salete Nunes da Silva. Posteriormente, uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da violência concluiu que o motorista, Valdir José da Silva, foi responsável pelo atropelamento, considerado intencional.
Dois anos depois, em 11 de março de 1989, ocorreu outro episódio de extrema violência: o massacre da Fazenda Santa Elmira, em Salto do Jacuí. O então governador Pedro Simon (MDB) descumpriu um acordo firmado horas antes, com a mediação do bispo dom Jacó Hilgert, e ordenou o despejo violento de 500 famílias acampadas. A ação policial resultou em mais de 400 trabalhadores gravemente feridos, além do ataque aéreo que pulverizou agrotóxicos sobre o acampamento.
O silêncio dos arquivos e a via judicial
Para além do resgate histórico, a dor que atravessa gerações esbarra no “esquecimento” burocrático. De acordo com o pesquisador da UnB Luiz Ribas, um dos nós mais dramáticos da apuração histórica continua sendo a falta de transparência dos órgãos oficiais. Ao investigar o caso da pulverização aérea com agrotóxicos em Salto do Jacuí, a equipe de pesquisa deparou-se com um vácuo documental: nos arquivos digitalizados do Poder Judiciário, simplesmente não constava nada sobre o episódio.
“A dificuldade de acesso aos documentos históricos e públicos continua sendo uma forma de negação por parte de quem tem a guarda dessas informações. Mas esse esforço vale a pena. O seminário reuniu sobreviventes, familiares de vítimas e agentes pastorais da época em relatos carregados de emoção e de uma imensa coragem de revelar o que o Brasil insiste em calar”, afirma Ribas.
No caso do Trevo de Sarandi, marcado pela morte da militante Roseli Nunes e de outros dois agricultores, o seminário encaminhou propostas concretas para instituir espaços de memória. A intenção é erguer marcos e monumentos simbólicos na região, possivelmente na própria encruzilhada onde Nunes foi sepultada.
A mística, a cruz e a terra
A preservação simbólica também foi a tônica da fala do padre Arnildo Afonso Fritzen, agente histórico da CPT no Rio Grande do Sul (CPT-RS), que acompanhou as primeiras ocupações camponesas no final dos anos 1970. Com a vivência de quem esteve na histórica Encruzilhada Natalino e em sucessivos enfrentamentos, o sacerdote não poupou críticas à omissão do sistema judiciário diante da violência rural orquestrada pelo latifúndio.
“Sob todos os aspectos, o escamoteamento da verdade foi total. Sempre se fugiu da justiça, achando desculpas, enquanto os mandantes ficavam escondidos e impunes. A memória tem que estar presente simbolicamente em monumentos, em imagens dos mártires. As crianças e os jovens precisam saber que nós só chegamos até aqui porque houve luta”, afirma Fritzen.
O padre relembrou a mística bíblica que fundamentou o nascimento da Pastoral da Terra na virada para a década de 1980, inspirada nas leituras populares do livro do Êxodo e na dedicação de nomes como o irmão Antonio Cechin e frei Sérgio Görgen. Para ele, é urgente buscar reparações e ter a coragem de não se limitar à denúncia, mas concretizar ações nos âmbitos civil e pastoral.
A luta pela soberania e o horizonte da esperança
Entre a recordação dos aviões que despejavam veneno e a sala onde leciona hoje, em Águas Claras, Serpa resumiu o papel que a CPT desempenhou como sustentáculo prático e formativo das famílias sem-terra: “A CPT assume a vida e a luta do povo.”
Ao mesmo tempo que rememorava o passado, Serpa alertou para os riscos do presente e do futuro. Diante do avanço do conservadorismo e dos ataques à produção de conhecimento crítico, ela chamou a atenção para a urgência de garantir a autonomia e o financiamento das universidades públicas, peças-chave para que pesquisas sobre direitos humanos e violência no campo não sejam interrompidas.
Ao final do encontro, o coordenador da CPT-RS, Luiz Antônio Pazinato, sintetizou a atmosfera que pairava entre os barracões do assentamento: a ausência de investigações públicas e punições ao longo de quase quatro décadas não conseguiu apagar o direito à memória. Em cada relato compartilhado em Viamão, a dor converteu-se em documento, e a esperança de justiça permaneceu de pé.
Fonte: Brasil de Fato


