A ascensão e a consolidação de forças de extrema-direita com matrizes neofascistas deixaram de ser apenas um objeto de debate acadêmico para se tornarem uma ameaça concreta ao futuro político e social do Brasil. Mais do que embates partidários abstratos, a chegada de um projeto de poder com essas características ao comando do Estado altera drasticamente o cotidiano, os direitos e a segurança de qualquer cidadão comum.
Compreender o real perigo desse modelo exige olhar além dos discursos de palanque e examinar como o neofascismo impacta diretamente a vida prática da população.
1. O Desmonte dos Direitos Sociais e do Trabalho
Sob o verniz de uma suposta “liberdade econômica”, governos de matiz neofascista costumam aprofundar agendas de desregulação que recaem pesadamente sobre a classe trabalhadora:
- Precarização sem rede de proteção: A flexibilização radical das leis trabalhistas é tratada como modernização, resultando na perda de garantias históricas, enfraquecimento de sindicatos e ampliação da informalidade sem amparo.
- Retirada do Estado de Bem-Estar: O orçamento público deixa de priorizar áreas vitais como saúde pública, educação básica e programas de transferência de renda, redirecionando recursos para subsídios a setores privilegiados e privatizações a preço de custo.
2. A Institucionalização do Ódio e a Violência Cotidiana
O neofascismo não sobrevive sem a criação constante de conflitos e bodes expiatórios. No dia a dia da sociedade, isso se traduz em um ambiente de hostilidade generalizada:
- Violência contra minorias e dissidentes: Mulheres, populações negras, indígenas, LGBTQIA+ e comunidades periféricas passam a enfrentar um clima de sanção oficial à discriminação. O preconceito deixa de ser punido e passa a ser incentivado culturalmente.
- Milícias e o culto às armas: A facilitação do acesso a armamentos e a tolerância com grupos paramilitares promovem a militarização da vida cotidiana, elevando os índices de violência urbana, conflitos agrários e o medo nas cidades.
3. A Degradação da Democracia e das Liberdades Individuais
O objetivo final de um projeto neofascista é a captura e a corrosão das instituições democráticas por dentro:
- Ataques à imprensa e à ciência: Jornalistas, cientistas, pesquisadores e artistas são sistematicamente deslegitimados. O saber técnico e científico é substituído por teorias da conspiração e pelo pensamento dogmático.
- Criminalização dos movimentos sociais: Protestos, greves e a organização civil legítima passam a ser tratados como “atos subversivos” ou “terrorismo”, silenciando a oposição e restringindo o direito fundamental à livre expressão e manifestação.
4. O Isolamento Internacional e a Crise Econômica
Um Brasil governado sob diretrizes neofascistas perde o seu papel de protagonismo diplomático e cooperação global:
- Retração de investimentos: Governos alinhados a agendas extremistas e anti-ambientalistas geram desconfiança nos mercados internacionais, resultando em sanções, fuga de capitais e perda de parcerias comerciais estratégicas.
- Prejuízo soberano: A soberania nacional, paradoxalmente tão vociferada por esses grupos, sai enfraquecida diante do isolamento geopolítico, encarecendo produtos, combustíveis e reduzindo o poder de compra das famílias.
Conclusão: Um Alerta para o Presente
A experiência histórica e as análises do tempo presente demonstram que o fascismo do século XXI não se instala necessariamente com golpes de Estado abruptos, mas de forma gradual, corroendo as bases da democracia com o apoio popular obtido através do medo e da desinformação.
Para o cidadão comum, permitir que esse projeto avance significa trocar garantias constitucionais, paz social e prosperidade coletiva por um ciclo de exclusão, ódio institucionalizado e instabilidade crônica. A defesa da democracia, portanto, não é uma bandeira partidária, mas uma condição indispensável para a sobrevivência digna no país.
Legenda – Os militares Mário Fernandes, Helio Lima, Rodrigo Azevedo e Rafael Oliveira e o policial Wladimir Soares formavam o comando assassino. Bolsonaro e Braga Netto esperam a sua vez – Imagem: Arte: Pillar Velloso. Fotos: Arquivo/AFP, Redes Sociais/Exércit… Leia mais em https://www.cartacapital.com.br/opiniao/a-construcao-do-mito-a-opera-bufa-que-gerou-o-fascismo-no-brasil-iii/. O conteúdo de CartaCapital está protegido pela legislação brasileira sobre direito autoral. Essa defesa é necessária para manter o jornalismo corajoso e transparente de CartaCapital vivo e acessível a todos


