Levantamento revela aumento dos casos nas últimas duas décadas e reforça a necessidade de ampliar o acesso à saúde mental e às ações de acolhimento
O aumento dos casos de suicídio entre adolescentes e jovens nas Américas acendeu um alerta para autoridades de saúde e especialistas. Dados divulgados pela Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), braço regional da Organização Mundial da Saúde (OMS), mostram que o suicídio já é a terceira principal causa de morte entre pessoas de 10 a 24 anos na região.
As informações fazem parte de um estudo publicado na revista científica The Lancet Regional Health – Americas, que identificou uma tendência de crescimento das taxas de suicídio nas últimas duas décadas. Segundo o levantamento, foram registradas 18.157 mortes por suicídio entre jovens e adolescentes nas Américas, evidenciando um problema que ultrapassa a esfera individual e demanda respostas estruturadas do poder público.
Além dos números absolutos, a pesquisa aponta fatores que podem estar relacionados ao aumento dos casos, como transtornos de saúde mental, uso de álcool e outras substâncias, pressão social, facilidade de acesso a meios letais e a exposição excessiva a ambientes digitais. Para especialistas, o cenário exige investimentos contínuos em prevenção, acolhimento e ampliação da rede de atenção psicossocial.
Segundo o advogado Thayan Fernando Ferreira, especialista em direito público e direito de saúde, membro da Comissão de Direito Médico da OAB-MG e diretor do escritório Ferreira Cruz Advogados, o enfrentamento do problema não deve ficar restrito às famílias ou aos profissionais de saúde, mas constitui uma responsabilidade compartilhada que envolve toda a estrutura estatal. “O ordenamento jurídico brasileiro já reconhece a prevenção do suicídio como uma questão de saúde pública. O Estado tem o dever de promover ações de conscientização, ampliar o acesso ao atendimento psicológico e psiquiátrico e garantir que pessoas em situação de vulnerabilidade recebam acolhimento adequado antes que o sofrimento evolua para situações mais graves”, afirma.
O especialista destaca que a principal referência legal sobre o tema é a Lei nº 13.819/2019, que instituiu a Política Nacional de Prevenção da Automutilação e do Suicídio. Entre as diretrizes previstas na norma estão a promoção da saúde mental, a identificação precoce de sinais de sofrimento psíquico, a articulação entre os serviços de saúde e a produção de informações que auxiliem na formulação de políticas públicas. “A legislação brasileira determina que a prevenção seja realizada de forma integrada, envolvendo os sistemas de saúde, educação, assistência social e demais órgãos públicos. A proposta é criar uma rede capaz de identificar fatores de risco, oferecer suporte e encaminhar essas pessoas para o tratamento adequado”, explica.
A discussão também envolve a garantia do acesso a tratamentos adequados e ao atendimento especializado. Nesse contexto, especialistas defendem a ampliação de políticas públicas voltadas à prevenção, ao diagnóstico precoce e ao acompanhamento contínuo de pessoas em situação de vulnerabilidade emocional.
Além disso, a lei estabelece a notificação compulsória dos casos de violência autoprovocada atendidos pelos serviços de saúde, medida considerada fundamental para o monitoramento do problema e para a elaboração de estratégias de prevenção. Para Thayan, o desafio atual está em transformar as previsões legais em ações efetivas e acessíveis à população. “Mais do que possuir uma legislação específica, é necessário garantir sua aplicação prática, com investimentos em saúde mental, capacitação de profissionais e fortalecimento da rede de atendimento. A prevenção do suicídio depende de políticas permanentes e de uma atuação coordenada do poder público”, conclui.
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