“Doutora, meu filho só come cinco alimentos e a barriga dele nunca funciona direito. Isso tem a ver com o autismo?”
Eu ouço essa pergunta quase toda semana.
Não é difícil entender por quê. Constipação, gases, dor abdominal, diarreia, seletividade alimentar. Para muitas famílias de crianças autistas, o intestino também faz parte da rotina de preocupações.
Existe uma conexão que a ciência vem tentando entender cada vez melhor.
O intestino não serve apenas para digerir comida
Dentro dele vivem trilhões de bactérias, fungos e outros micro-organismos que formam o microbioma intestinal.
Este verdadeiro ecossistema participa da digestão, interage com o sistema imunológico e produz substâncias capazes de se comunicar com outras partes do organismo, inclusive com o cérebro.
Quando há desequilíbrio nesta comunidade de micro-organismos, usamos o termo disbiose intestinal.
É justamente aí que a história começa a ficar interessante.
O microbioma de crianças autistas parece ser diferente
Diversos estudos encontraram diferenças na composição da microbiota intestinal de pessoas com autismo quando comparadas a indivíduos sem o diagnóstico.
Vale uma ressalva importante: ainda não temos uma “microbiota do autismo”. Os resultados variam entre os estudos e são influenciados por alimentação, idade, medicamentos, localização geográfica e pelo próprio funcionamento intestinal.
Portanto, a ciência encontrou uma associação. Ainda está tentando entender exatamente o que ela significa.
Mas o que a barriga tem a ver com o cérebro?
Mais do que imaginávamos.
Intestino e cérebro mantêm uma comunicação constante por meio do chamado eixo intestino-cérebro, envolvendo sistema nervoso, sistema imunológico, nervo vago e substâncias produzidas pela microbiota.
Por isso, pesquisadores estudam se alterações intestinais e da microbiota podem participar de processos inflamatórios e metabólicos capazes de influenciar o funcionamento do sistema nervoso.
Isso não significa que a disbiose cause autismo.
A relação provavelmente é muito mais complexa e pode funcionar nos dois sentidos.
Uma criança autista pode apresentar seletividade alimentar importante, consumir pouca variedade de fibras, ter alterações da motilidade intestinal ou utilizar determinados medicamentos. Tudo isso também pode modificar sua microbiota.
E existe outro ponto que não podemos ignorar: dor muda comportamento
Imagine uma criança que está constipada há vários dias, sente gases ou dor abdominal, mas não consegue identificar ou comunicar claramente o que está sentindo.
Ela pode ficar mais irritada. Dormir pior. Recusar alimentos. Ficar agitada. Apresentar mais crises.
E então corremos o risco de interpretar como “comportamento do autismo” aquilo que, pelo menos em parte, pode ser desconforto físico.
É aqui que a investigação muda
Quando uma criança autista apresenta intestino constantemente irregular, seletividade alimentar importante e sintomas gastrointestinais recorrentes, não faz sentido olhar apenas para o comportamento.
É preciso entender como ela se alimenta, como evacua, quais sintomas apresenta e se existem doenças gastrointestinais ou deficiências nutricionais que precisam ser investigadas e tratadas.
Dependendo do caso, o cuidado pode incluir mudanças graduais na alimentação, tratamento da constipação ou de outras condições associadas e estratégias nutricionais individualizadas.
Cuidar do intestino não substitui fonoaudiologia, terapia ocupacional ou outras intervenções necessárias no TEA.
Mas existe uma pergunta simples que deveria fazer parte da avaliação de toda criança que apresenta uma piora inexplicada do comportamento:
como está funcionando o intestino dessa criança?
Às vezes, antes de tentar controlar uma crise, precisamos descobrir se existe um corpo desconfortável tentando pedir ajuda.
Dra. Thatyana Turassa é médica pediatra com atuação voltada ao desenvolvimento infantil, transtornos do neurodesenvolvimento e pediatria integrativa. Possui formação em transtornos do neurodesenvolvimento pelo CBI of Miami e Certificação Thiago Castro. Dedica-se ao acompanhamento de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA), TDAH e outras condições do desenvolvimento, com um olhar integrativo que une ciência, investigação de causas e suplementação individualizada à escuta e ao acolhimento das famílias.
Dra Thatyana Turassa
CRMSP 150384 | RQE 77914
Pediatra • Autismo • Desenvolvimento • Pediatria Integrativa
E-mail: thatyana@me.com


