Em 2026, passado o primeiro quarto do século 21, é preciso ressaltar – ainda – que o acesso à eletricidade é uma questão de direitos humanos reconhecida pela própria ONU, já que dele dependem outros direitos essenciais, como saúde, água, alimentação, moradia, educação e trabalho.
Como uma paulista, francorrochense-paulistana, nunca tinha efetivamente refletido sobre tudo que é impactado pela falta de energia. Afinal, nunca havia me tocado ficar mais do que algumas horas sem luz. Porém, agora, imersa em outra realidade, a de uma sul-fluminense paratiense, me dou conta de que sua falta impacta toda a cadeia de valor e suprimentos, até as menos óbvias. A comida estraga, a bomba de gasolina não funciona, o cartão não passa no supermercado, a internet cai, a rede de telefonia desaparece, o hospital para…
Para a minha realidade, ficar quatro dias sem o fornecimento de eletricidade, como ficamos em boa parte do município de Paraty, no litoral Sul do Rio de Janeiro, no final de julho, é muito. Mas isso ainda é pouco diante da vida de milhões de pessoas em Cuba, onde a falta de energia não é uma interrupção extraordinária da rotina: é parte da própria rotina.
Este poderia ser um papo de “classe média sofre”, mas prometo que não é.
Na quarta-feira, 29 de julho, rajadas de vento de até 110 km/h atingiram Paraty. Eu não estava ciente dos riscos e muito menos de que não deveria ter saído de casa naquele dia. Eu só sabia que iria chover. Portanto, quando o vento já se tornava visível na baía da cidade — na verdade, achei inicialmente que era chuva, devido à aparência das nuvens —, eu estava no centro, abastecendo meu carro à beira-mar, em um posto de gasolina que também abastece barcos.
Éramos quatro pessoas no carro. Duas mulheres adultas, uma jovem e uma criança. Estávamos felizes, animadas, planejando ir à praia. Tudo foi muito rápido. A energia do posto cai. A bomba de gasolina para. O frentista pede para esperarmos a luz voltar. As nuvens avançam rapidamente em nossa direção. Peço para pagar enquanto a maquininha ainda está funcionando – aqui a energia cai toda hora – e acerto apenas o valor correspondente ao que a bomba conseguiu colocar de gasolina.
Já na estrada, o primeiro cenário era lindo: outono premium, com os carros passando e uma infinidade de folhas secas voando ao nosso redor. Absolute Cinema, mas só até a primeira curva. Estamos falando de segundos. O que encontramos na sequência já era completamente diferente.
As árvores que formam alamedas pela estrada são parte do que faz Paraty linda. Mas a poda delas é alvo de intensas disputas entre a CCR, a Enel e a Secretaria do Meio Ambiente da Prefeitura de Paraty.
(Imagem meramente ilustrativa gerada por IA)
O que encontramos além da primeira curva, porém, já era totalmente diferente. O vento forte chegava a fazer uma barreira contra o carro. As árvores da frondosa BR-101, a Rio-Santos, se chacoalhavam estrepitosamente. Galhos secos começaram a tomar a pista. Passar com o carro sobre eles não chega a ser perigoso se você estiver em baixa velocidade, mas houve choque e barulho suficientes para assustar a criança que, diante de algo que nunca vira, começou a chorar copiosamente, com medo de morrer.
Diferentemente de outros países, não temos preparo algum para lidar com esse tipo de situação.
Eu estava dirigindo no olho da ventania e não havia rota de fuga, já que toda a BR havia se tornado uma ameaça. As árvores que formam alamedas pela estrada são parte do que faz Paraty linda. Mas a poda delas é alvo de intensas disputas entre a CCR, a Enel e a Secretaria do Meio Ambiente da Prefeitura de Paraty. Fato é que elas caem, seus galhos quebram, seus cipós atingem e, às vezes, matam motociclistas. São muitas as mortes de moradores ocorridas nesta estrada.
Logo eu, um poço de ansiedade, era responsável por outras três vidas e tinha a obrigação de manter todos calmos e confiantes de que nada nos ocorreria. Finalmente chegamos a um ponto da estrada onde era possível nos refugiar. Minutos depois, uma árvore enorme cai atrás de nós, na pista. Motoristas se arriscam passando pelo acostamento. O ônibus encara os galhos maiores e segue viagem. Chovia naquele momento.
Como agir numa hora dessas? Fazia calor. A criança se assustava com o barulho quando abríamos a janela. Muita incerteza. O carro não conseguia sintonizar nenhuma rádio e não havia sinal de internet ou telefone. Isolamento e apagão informacional total.
Amenizada a turbulência, o caminho adiante era de muitas, mas muitas árvores caídas. O cenário era apocalíptico. Os carros se auto-organizavam num sistema de siga e pare para desviar das barreiras naturais. Era preciso ter sempre cuidado para não ficar parada embaixo de uma delas quando não havia como seguir. Em alguns pontos, moradores faziam esse trabalho, organizando o fluxo debaixo de chuva.
Como agir numa hora dessas? Fazia calor. A criança se assustava com o barulho quando abríamos a janela. Muita incerteza. O carro não conseguia sintonizar nenhuma rádio e não havia sinal de internet ou telefone. Isolamento e apagão informacional total.
(Imagem meramente ilustrativa gerada por IA)
Lembrei novamente de Cuba. Desde o começo do ano, a ilha tem ficado sem eletricidade. Telefone e internet também são impactados. Rádio e televisão às vezes deixam de funcionar. Fatos que são narrados por agências internacionais, mas que omitem o agente imperialista por trás do caos caribenho.
Os fenômenos climáticos podem atingir quaisquer territórios; a capacidade de atravessá-los, porém, é profundamente desigual. Cuba tem uma estrutura e capacidade de lidar com furacões e tornados que é extraordinária. Geralmente eles atravessam a ilha deixando alguns danos materiais, mas são raras as mortes decorrentes deles. Já aqui, eu sequer sabia que poderíamos ter um ciclone-bomba, como o que atingiu o Rio Grande do Sul na última quinta-feira (6).
Aqui, em meio ao caos total e às incertezas, eu sabia que o vendaval passaria e as coisas voltariam ao normal. Mas fiquei pensando: e quando elas não voltam? E quando toda a população é submetida à escassez permanente de combustível, à infraestrutura deteriorada, a apagões diários e permanentes?
Poucos minutos após os ventos cessarem, veio a calmaria. O céu se abriu e se pintou de cores diversas, trazendo uma paz tensa. Já estava escurecendo e, pelo cenário, era certo que ficaríamos ainda um bom tempo sem energia elétrica. Compreensível pelo tamanho do estrago.
De fato, o apagão foi total: sequer era possível comprar velas, por exemplo, porque, sem sistema ou internet, cartões ou Pix não eram aceitos. Pleno ano de 2026 e em Paraty ainda precisamos ter dinheiro em espécie, coisa que eu não tenho e não tinha naquele momento. Tive que pendurar meu vinho e outras cositas no bom e velho fiado.
Na região Sul de Paraty, foram quatro dias inteiros sem luz. Em algumas localidades mais afastadas, foram seis dias no escuro. Tempo suficiente para transformar geladeiras em armários, mercadoria em prejuízo e comida em lixo.
Ainda assim, funcionários tiveram que comparecer a lojas que não tinham como vender, a empresas que sequer estavam funcionando. É o capitalismo em sua forma mais banal: não importa o que aconteça, o trabalhador não pode ganhar nada a mais – nem mesmo o direito de ficar em casa quando o próprio local de trabalho deixa de funcionar.
Traçando novamente um paralelo com Cuba, onde os cortes ultrapassam 20 horas diárias e, em algumas regiões, se prolongaram por dias, a perda de alimentos deixou de ser excepcional. Agências de notícias internacionais relatam que famílias precisam se organizar em torno de pequenas e imprevisíveis janelas de eletricidade. Tudo é organizado em torno disso: armazenamento de comida, banhos, trabalhos e tarefas domésticas e mesmo atividades simples e cotidianas.
O drama é ainda maior do que organizar a rotina familiar. Crianças e bebês estão morrendo porque não há medicamentos e equipamentos médicos necessários para salvá-los. Falta de tudo e médicos são obrigados a escolher quais crianças receberão tratamento e quais ficarão na fila.
Com o histórico de apagões recorrentes, porém em janelas muito menores, paratienses optam por resolver o tema por conta própria: muitos têm geradores ou placas solares, por exemplo. Mas e quando não há essa possibilidade?
No Haiti, a energia sequer é garantida para todos. Apenas 49% das pessoas têm acesso a ela. Para contornar isso, quem pode compra gerador a diesel ou placa solar; a maioria da população se vira como dá, no escuro, sem eletrodomésticos, televisão ou computadores.
Conforme as horas passavam, de forma inversamente proporcional, a paciência dos paratienses acabava. Assim, começaram a pipocar os protestos e barricadas. Lenha havia de sobra na BR – alguns até já juntam pneus para os momentos em que é necessário fechar a rodovia – e em pouco tempo a Rio-Santos estava em chamas.
O caos se instaura. Turistas, ilhados na Vila de Trindade, fizeram nota pedindo apoio humanitário. Eram 150 presos numa praia, em roupas de banho, impedidos de sair por causa dos bloqueios. Não precisou de intervenção diplomática: os próprios moradores se organizaram e distribuíram as pessoas em pousadas e casas, garantindo a eles algum conforto, enquanto asseguravam o direito dos demais ao protesto.
Conforme as horas passavam, de forma inversamente proporcional, a paciência dos paratienses acabava.
(Imagem meramente ilustrativa gerada por IA)
Evidentemente o alvo da ira popular não era Deus ou o El Niño, e sim a Enel, que todo verão – e agora primavera, outono e inverno – deixa a cidade às escuras. Crianças, jovens, adultos, idosos, indígenas, quilombolas e caiçaras. Donos de pousadas, comércios, restaurantes, trabalhadores de todos os setores ocuparam a pista para protestar, cansados de serem reféns da concessionária que, ao invés de fornecer um panorama transparente da situação, fazia promessas de normalização que eram atualizadas várias vezes em um mesmo dia.
Talvez, querida e querido leitor, você esteja pensando qual o sentido desse relato tão territorialmente localizado num veículo dedicado à cobertura internacional, tendo sido eu convidada a escrever sobre temas latino-americanos.
Mas eu estou falando de Paraty, uma cidade que é patrimônio mundial da humanidade e está fortemente inserida no cenário internacional por ser um dos destinos mais procurados por turistas no Brasil. O ano inteiro são realizados eventos importantes, atraindo pessoas de todo o país – no caso da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), do mundo.
E, mesmo assim, diante de eventos previsíveis ou não, não há estrutura pública capaz de responder aos eventos climáticos extremos. Em fevereiro, quando uma chuva torrencial nos atingiu, houve comoção nacional com as pessoas que perderam tudo. Mas elas ainda estão aqui e a maior parte está reconstruindo a própria vida sozinha, sem nenhum auxílio do poder público.
É nesse ponto que “desastre natural” deixa de me parecer uma expressão suficiente. Vento, chuva, furacão e ciclone são fenômenos da natureza. Uma família perder tudo e reconstruir sozinha; um hospital ficar sem combustível; uma população passar dias sem água porque a bomba não funciona; milhões não conseguirem telefonar porque as antenas apagaram – nada disso é produzido apenas pela natureza. Há escolhas econômicas, infraestrutura, relações de poder e desigualdade entre o fenômeno meteorológico e a tragédia social.
O que me toca questionar é: se aqui, com toda a visibilidade que a cidade tem § inclusive com a Folha de S.Paulo noticiando o absurdo de a Flip ter ficado sete horas sem luz, quando, na verdade, populações rurais, costeiras, indígenas, quilombolas e caiçaras ficam vários dias no escuro ao longo do ano –, como cidades menores e com menos visibilidade vão lidar com esses cenários? Como países com menos infraestrutura vão atravessar essa próxima era de extremos?
Paraty tem 40 mil habitantes, está no Rio de Janeiro, um dos estados mais ricos e estruturados do maior país da América Latina. Se, ainda assim, um evento relativamente curto produz esse grau de desorganização, o que ocorre quando fragilidade energética, crise econômica e eventos climáticos se tornam permanentes? Como estarão vivendo os cubanos quando isso é uma realidade por semanas? Haverá algum estadunidense preocupado com isso?
Isolar Cuba, deixá-la sem combustível, sem energia, sem serviços essenciais é uma tragédia sem tamanho. Se em uma cidade de 40 mil habitantes há revolta e frustração, é de se considerar que em Cuba os protestos também existem e são legítimos. Mas talvez a pergunta mais difícil seja outra: aqui, o alvo da revolta é a Enel. Mas e lá? Contra quem se protesta quando as condições adversas são produzidas fora do território nacional?
Em Paraty, sabemos o nome da concessionária, podemos fechar a Rio-Santos, cobrar a prefeitura, pressionar a Aneel, acionar a Justiça. Em Cuba, a crise tem as digitais e a mão inteira dos Estados Unidos atuando para gerar exatamente esse sentimento de revolta, de cansaço, de frustração. É assim que eles tentam, mais uma vez, forçar a mudança de regime e acabar com a Revolução Cubana.
O serviço de fornecimento de energia deveria ser um direito universal. Para nós, em Paraty; para os cubanos; para os haitianos, para todos. Mas em um mundo ainda dominado pelo capitalismo, alguns têm mais direitos que outros. Ou vocês imaginam Nova York sem luz por quatro dias?
As mudanças climáticas estão aqui. E o El Niño já está também: em julho de 2026, a NOAA declarou oficialmente sua presença e projetou seu fortalecimento até o fim do ano, com 97% de probabilidade de persistir até o início de 2027. Não é mais um sinal distante do que pode vir. É parte do cenário em que esses sistemas frágeis terão de continuar funcionando.
Em tempo, as condições meteorológicas criadas pelo ciclone bomba e a chegada de uma frente fria no Sudeste geraram novamente uma situação extrema na última sexta-feira (7). Ventos de 70 km/h atingiram Paraty e novamente a população ficou no escuro. Desta vez, moradores enfrentaram até sete horas de apagão. Mas, para 263 casas e estabelecimentos, já são mais de 24h sem energia, segundo estimativa da própria Enel.
Aqui, lutamos pelo fim da concessão do fornecimento de energia a uma empresa estatal italiana. Em Cuba e no Haiti, os povos lidam com as mesmas mudanças climáticas. A diferença é a mão pesada do imperialismo dos Estados Unidos diretamente sobre eles. O império já não quer apenas extrair mais-valia dessas sociedades, quer esmagá-las para que seus exemplos sejam vendidos como fracasso, não como o que realmente são: revoluções. Faróis que se tentam encobrir com névoa e apagar do horizonte, mas cuja luz continua atravessando o mar.
(*) Vanessa Martina-Silva é jornalista e repórter especializada em América Latina. Mestra em Integração da América Latina pela USP, cobre política, integração regional, colonialidade e disputas geopolíticas no continente. É diretora de redação da Diálogos do Sul Global e analista política do programa Rodamundo.



