O resultado das eleições de meio de mandato nos Estados Unidos sinalizou um duro golpe para o ex-presidente Donald Trump e o partido Republicano nas urnas. O partido Democrata comemorou a chamada “onda azul” e muitos destacaram “zebras” que aconteceram em estados historicamente Republicanos.
Contudo, para a analista política Stephanie Waterby, o resultado é mais uma expressão genuína da rejeição popular ao governo Trump do que uma demonstração de entusiasmo em relação aos democratas. “Eu acho que é uma derrota do Trump muito mais do que uma vitória para os democratas. Eu acho que é um voto raivoso muito mais do que um voto democrata”, ponderou em participação no podcast de política internacional O Estrangeiro, do Brasil de Fato, destacando o impacto direto do aumento do custo de vida como ingrediente principal da insatisfação do eleitorado.
De acordo com Waterby, a corrosão do poder de compra da classe trabalhadora estadunidense, que não registra um ganho real de renda em relação à inflação há décadas, foi o principal motor dessa insatisfação. “Um aumento real que realmente cria melhores condições de vida. É uma população muito endividada e com cada vez pior qualidade de serviços públicos. Então, tudo isso tem construído uma insatisfação muito forte com o sistema. Claro que, no caso dos republicanos, eles canalizam isso para um discurso de que o problema são as ondas migratórias, um problema de valores na sociedade, do desgaste das ideias conservadoras, que isso está, de certa forma, ferindo a unidade da sociedade”, pontua.
A analista apontou ainda que, apesar de o partido Democrata utilizar pautas sociais na campanha, a legenda mantém fortes vínculos com os setores do mercado financeiro e com grandes corporações. “Como o país unicamente tem dois partidos que conseguem disputar eleições, o eleitor acaba escolhendo quem menos desagrada e não necessariamente quem melhor o representa”, acrescenta.
Ainda sobre isso, Stephanie Waterby pondera, por exemplo, que, no âmbito da política internacional, os dois partidos mantêm convergência nos pilares fundamentais da atuação geopolítica dos EUA. “O tema que mais reúne, que mais gera unidade entre ambos os partidos, no tema em que eles mais se parecem, é a política externa. Porque a burguesia dos Estados Unidos tem o interesse que a une, que é a preservação do dólar”, argumenta.
Por outro lado, o pleito também registrou marcos históricos na representação parlamentar, com a eleição de perfis inéditos para o Legislativo. O repórter Rodrigo Chagas ressaltou que a disputa foi marcada por uma “série de primeiras vezes”, que incluiu a escolha da primeira mulher indígena governadora, governadores de origem mexicana em estados estratégicos como Texas e Califórnia, além das primeiras lideranças abertamente muçulmanas, LGBT+ e não binárias ocupando cadeiras de destaque.
Chagas pontuou ainda a expansão da ala progressista dentro da legenda democrata, ressaltando que o grupo dos Socialistas Democráticos da América (DSA) ampliou sua presença parlamentar na Câmara de duas para sete cadeiras. Nesse sentido, em que pese não ser possível apontar uma guinada à esquerda no Congresso estadunidense, a vitória democrata foi surpreendente. “A maioria dos políticos que se pronunciaram são os políticos da esquerda, os políticos em geral derrotados na última leva de eleições na América Latina. De um modo geral, os líderes de direita, aqueles que foram favorecidos pela interferência assumida dos Estados Unidos no último período eleitoral, não se posicionaram até agora”, aponta.
Confira o episódio completo abaixo:
Para ouvir e assistir
O podcast O Estrangeiro vai ao ar semanalmente às quartas-feiras às 15h, disponível nos canais do Brasil de Fato.
Fonte: Brasil de Fato


