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A adesão de mulheres a movimentos políticos de extrema-direita e de matriz bolsonarista constitui um dos fenômenos mais paradoxais e preocupantes da sociologia política contemporânea. Ao procurarem abrigo numa pauta que promete a preservação da “família tradicional” e o resguardo moral, muitas destas mulheres caem numa ilusão ideológica que mina a sua própria autonomia. O problema, contudo, transcende a escolha individual no campo político: ao assimilarem e reproduzirem a retórica misógina, violenta e desumanizadora que caracteriza esse espectro, estas mães e educadoras tornam-se vetores diretos da formação de uma nova geração de homens incapazes de empatia e propensos à violência doméstica.
A ilusão feminina no interior do conservadorismo radical baseia-se na falsa premissa de que a submissão e a validação do papel tradicional de gênero garantem proteção e respeito. No entanto, a estrutura ideológica em questão assenta sobre o culto da força bruta, o desprezo pelo sensível e a desqualificação sistemática do público feminino. Quando a mulher valida falas que normalizam a agressividade e a hierarquia patriarcal, ela legitima o próprio discurso que desvaloriza a sua existência e a de todas as outras. Trata-se de uma armadilha em que a busca por segurança resulta no fortalecimento da estrutura que a oprime.
O impacto mais devastador desta contradição reflete-se na criação dos filhos. A infância e a adolescência são fases em que os valores morais e os modelos de masculinidade são absorvidos no ambiente familiar. Quando um rapaz é educado num lar onde o pai exerce o domínio através da intimidação e a mãe justifica ou relativiza atos de agressão e misoginia, a violência passa a ser encarada como um comportamento natural e legítimo. A ausência de limites éticos no discurso público — frequentemente traduzida em apologia das armas, na exaltação do confronto e na rejeição da igualdade — molda rapazes que associam a virilidade ao poder de subjugar a mulher.
As consequências desta dinâmica para o futuro são alarmantes. Ao crescerem sem o aprendizado do respeito mútuo e sem a capacidade de processar frustrações de forma civilizada, estes jovens tornam-se adultos propensos a reproduzir dinâmicas abusivas nas suas futuras relações conjugais. Trata-se da linha de montagem de homens que agridem, humilham e machucam as suas companheiras sem demonstrar qualquer vestígio de remorso ou arrependimento, sustentados pela convicção distorcida de que estavam apenas a exercer a sua autoridade.
Portanto, a quebra deste ciclo exige uma tomada de consciência urgente. Educar para o respeito, para a igualdade de gênero e para o rechaço irrestrito a qualquer forma de violência verbal ou física não é uma questão de militância partidária, mas uma necessidade premente de preservação da dignidade humana. Enquanto a ilusão ideológica cegar mães quanto aos riscos de validar a misoginia, a sociedade continuará a colher o fruto trágico de lares transformados em cenários de medo e barbárie.


