Além de Trump: eleição brasileira será marcada por pressões externas, por Manuela de Moura – METRÓPOLES

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Tarifas, disputas diplomáticas e influência geopolítica colocam a corrida presidencial do Brasil em 2026 no centro da competição global

Arte Metrópoles/Carla Sena
Além de Trump: eleição brasileira será marcada por pressões externas


As eleições presidenciais brasileiras, marcadas para outubro de 2026, ocorrem em um cenário que extrapola a tradicional disputa entre candidatos e projetos de governo. Em meio à corrida pelo Palácio do Planalto, o país passou a enfrentar uma crescente pressão internacional que reúne interesses econômicos, diplomáticos e geopolíticos.
O processo eleitoral deixou de ser apenas um assunto doméstico para se transformar em parte da disputa entre grandes potências e blocos internacionais.

Tabuleiro segue movimentado
Nos últimos meses, o Brasil passou a enfrentar uma sucessão de episódios que ilustram essa mudança.
Os Estados Unidos ampliaram sanções comerciais contra produtos brasileiros, intensificaram críticas às instituições nacionais e demonstraram aproximação política com o senador Flávio Bolsonaro (PL), pré-candidato à Presidência.
Paralelamente, a China reforçou sua parceria econômica e diplomática com Brasília, enquanto a União Europeia acelerou a implementação do acordo comercial com o Mercosul.
Já em países vizinhos, governos ideologicamente alinhados ao presidente norte-americano Donald Trump, como os da Argentina e do Paraguai, também passaram a protagonizar entreveros com o Palácio do Planalto.
Especialistas ouvidos pelo Metrópoles avaliam que, pela primeira vez, a política externa tende a ocupar papel central no debate eleitoral brasileiro.

“A eleição brasileira de 2026 ocorre em um contexto muito diferente daquele observado nos pleitos anteriores. Pela primeira vez desde a redemocratização, a disputa presidencial está profundamente inserida em uma competição geopolítica global“, afirma o professor de Geografia Humana da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Vitor de Pieri.

Segundo ele, o Brasil deixou de ser apenas um observador das transformações internacionais para ocupar posição estratégica na disputa entre Estados Unidos, China e demais centros de poder.

“Essa pressão externa não deve ser entendida necessariamente como uma tentativa explícita de interferência eleitoral, mas como a intensificação de esforços para influenciar decisões estratégicas do futuro governo”.

O próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva admitiu, na quinta-feira (30/7), temer que o governo de Donald Trump tente interferir nas eleições presidenciais deste ano.

“Eles vão tentar interferir aqui. Vão tentar ajudar o lado de lá a ganhar as eleições”, afirmou.

Lula disse manter uma boa “relação pessoal” com Trump, mas afirmou acreditar que o presidente norte-americano prefere uma vitória do senador Flávio Bolsonaro (PL). O petista também destacou a influência do secretário de Estado, Marco Rubio, na Casa Branca, com quem trocou farpas recentemente.
Pressão de Washington
O principal foco das tensões parte da relação entre os governos de Lula e Trump.
Desde o retorno de Donald Trump à Casa Branca, os dois países acumulam sucessivos embates diplomáticos e comerciais. O governo norte-americano elevou tarifas sobre produtos brasileiros, abriu investigações comerciais contra o Pix e classificou as facções brasileiras, Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV), como grupos terroristas.

A escalada coincidiu com a aproximação entre Trump e Flávio Bolsonaro. O presidente norte-americano declarou apoio público ao senador e recebeu o parlamentar na Casa Branca justamente no período em que anunciava novas medidas contra o governo brasileiro.

Nos bastidores, a tensão também atingiu o campo eleitoral.

Reportagem do jornal The Washington Post revelou que dois representantes do governo norte-americano pretendiam viajar ao Brasil para questionar a confiabilidade do sistema eleitoral brasileiro antes do pleito. A viagem acabou frustrada após o Itamaraty negar os vistos diplomáticos.
O episódio provocou reação inclusive dentro dos próprios Estados Unidos. Integrantes democratas do Comitê de Relações Exteriores do Senado americano acusaram o governo Trump de disseminar teorias conspiratórias sobre as eleições brasileiras.

Em nota conjunta, os parlamentares afirmaram que levantar dúvidas infundadas sobre processos eleitorais “mina a confiança na democracia” e prejudica aliados internacionais dos Estados Unidos.

Crises regionais ampliam isolamento
Ao mesmo tempo em que enfrenta o embate com Washington, o governo brasileiro vive uma sequência de desgastes diplomáticos com países vizinhos alinhados politicamente a Trump.

Nesta semana, o Paraguai convocou o embaixador brasileiro em Assunção após declarações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre a Guerra do Paraguai. O governo paraguaio classificou as falas como ofensivas e o Congresso local aprovou uma manifestação de repúdio contra o presidente brasileiro.

Dias antes, a Argentina havia provocado outra crise diplomática.

Durante a convenção do Partido Liberal (PL), em São Paulo, o presidente Javier Milei participou do lançamento da candidatura de Flávio Bolsonaro e fez uma série de ataques a Lula e ao ministro Alexandre de Moraes, do STF.

Como resposta, o Itamaraty convocou o embaixador argentino em Brasília para prestar esclarecimentos e chamou de volta, para consultas, o embaixador brasileiro em Buenos Aires, em um dos gestos diplomáticos mais duros entre os dois países desde a redemocratização.

Para analistas, a aproximação entre governos conservadores da América do Sul e o movimento liderado por Trump reduz o isolamento internacional da oposição brasileira e cria novas formas de articulação política além das fronteiras nacionais.

China e Europa entram no tabuleiro
Se os Estados Unidos representam o principal vetor de pressão, China e União Europeia aparecem como polos de apoio da política externa brasileira.

Após as sanções comerciais impostas por Washington, Pequim ampliou a compra de produtos brasileiros, credenciou dezenas de empresas nacionais para exportação de café e aprofundou acordos nas áreas de inteligência artificial, infraestrutura, minerais críticos e integração financeira.

No campo diplomático, o presidente Xi Jinping reiterou apoio à soberania brasileira durante conversa telefônica com Lula e reforçou o papel do Brasil como parceiro estratégico do BRICS.

Já a União Europeia avançou na implementação provisória do acordo comercial com o Mercosul, apesar das resistências de parte dos países europeus. O tratado abre novos mercados para produtos brasileiros, mas também estabelece mecanismos de salvaguarda que permitem restrições caso normas ambientais ou sanitárias sejam consideradas incompatíveis.

Na prática, o futuro governo brasileiro terá de administrar simultaneamente interesses muitas vezes conflitantes entre Washington, Bruxelas e Pequim.

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