A digitalização do tecido social, marcada pela plataformização da vida, tem mudado não apenas nossa relação com a informação, mas com a própria experiência objetiva e subjetiva do mundo, dando novas condições de possibilidade para o desdobramento de eventos cruciais em nossos tempos. Elas rearranjam o campo de possibilidade e reconfiguram os modos de se relacionar com processos em curso, acelerando dinâmicas e criando novas relações em velocidades antes impensáveis.
As zonas de guerra são hoje espaços onde tais efeitos revelam-se de modo radical. Podemos encontrar exemplos fundamentais no contexto da guerra entre Ucrânia e Rússia: cada vez mais o recrutamento ucraniano passa por processos de internacionalização, com a contratação de soldados ao redor do planeta, inclusive no Brasil. Para além dos que se engajam ideologicamente com a guerra, ou aqueles que procuram uma espécie de aventura bélica para chamarem de sua – que são muitos dos voluntários no lado ucraniano da guerra –, há também o recrutamento de ex-faccionados do crime organizado brasileiro, que encontram nos contratos ucranianos uma oportunidade para arriscarem a própria vida de forma mais rentável, considerando que os salários oscilam entre 2.9 até 26 mil reais por mês, como descrito no site de recrutamento ucraniano.
Sem compreendermos a digitalização, não é possível compreendemos a condição atual da guerra hoje. Mas o oposto não só é verdadeiro, como talvez seja ainda mais fundamental: sem compreendermos a condição atual da guerra hoje, talvez não seja possível compreendermos o que é, de fato, o processo de digitalização.
(Foto: Kathy Reesey / United States Marine Corps)
Em uma reportagem feita pela Record, três integrantes brasileiros contratados pelas forças ucranianas, ex-membros de facções do Rio de Janeiro, relataram a realidade que encontram cotidianamente no combate ucraniano: contratados por meio de redes sociais, onde inclusive outros soldados brasileiros que migraram para prestar seus serviços na Ucrânia fazem questão de divulgar a “oportunidade”, os três relataram a tensão presente no combate, o papel constante e massivo dos drones – operados exclusivamente por ucranianos – e a alta letalidade do confronto, onde “vão 12 e voltam 2”. Cada vez mais, a guerra entre Ucrânia e Rússia revela o estado esgarçado do tecido social, com a deterioração das expectativas e a crescente indiferença ao risco de vida, na medida em que o risco torna-se dado cotidiano. A guerra torna-se então uma espécie de bico, inserindo-se na dinâmica das gig economies – não falta muito para desenvolverem um modo de plataformização do serviço globalizado de mercenários das mais distintas partes do planeta. A “uberização militar” já é uma realidade.
Além disso, a guerra é cada vez mais marcada pelo uso de drones que são hoje um dos maiores recursos militares/bélicos, especialmente no contexto ucraniano. A expansão do uso militar de drones se estende à realidade das facções no Rio de Janeiro, que agora parecem entrar numa nova etapa de expansão estratégica, enviando soldados como mercenários para a guerra no leste europeu, com a finalidade de se especializarem, retornando com contribuições táticas de combate e, especialmente, capacitados para operar drones de grande porte – como descrito em matéria do G1. A compra de drones de carga e o treinamento de pessoal para operá-los no território do Rio de Janeiro já é uma realidade e, assim, facções passam a custear a viagem de seus integrantes para a Ucrânia, revelando uma característica quase “profissionalizante” na dinâmica contemporânea do mercado de mercenários.
Assim, a digitalização perpassa de maneira estruturante tanto as dinâmicas de organização desde a infraestrutura militar, suas especificidades bélicas contemporâneas, até os modos de recrutamento e contratos militares, como evidencia-se especialmente no site dos International Defenders for the Liberty of Ukraine, onde é possível se candidatar a diversas modalidades de contrato militar com o exército ucraniano preenchendo um simples formulário com informações básicas (nome, idade, contato de Whatsapp ou Signal e seu “currículo” de experiência militar). Tanto do lado ucraniano quanto do lado russo, também encontram-se casos de recrutamento de cidadãos africanos de diversos países, seduzidos com promessas de ganhos financeiros e cidadania, mas que tornam-se fundamentalmente “bucha de canhão.” Especificamente do lado russo, reporta-se também a contratação de mercenários chineses, através de propagandas militares que versam entre um apelo à fantasia de masculinidade viril resgatada ou assumem a forma de propaganda por influenciadores divulgando oportunidades para trabalho durante as férias.
Nesse contexto, encontramos uma espécie de desdobramento e atualização, pela via da digitalização, do que através de Adorno e Horkheimer poderíamos nomear como uma “sociedade de rackets” – isto é, uma sociedade gangsterizada, onde a dominação pela privatização da segurança, da proteção, de serviços belicizados paramilitares torna-se um modo fundamental de organização social em um momento de fragmentação das formas que davam algum nível de coesão ao tecido social. Em uma sociedade pós-salarial, com o horizonte de expectativas decrescentes marcado pela inexistência de uma perspectiva para o futuro, cada vez mais degradado e enclausurado em um presentismo decadente e cerceador, a digitalização apresenta formas de aceleração da regressão social, funcionando como catalisadora de dinâmicas localizadas, regionalizadas ou, ainda, nacionais, que agora tornam-se virtualmente internacionalizadas.
Assim, o processo que não mais se avizinha quanto já se faz presente, é o da plataformização de mercenários, das milícias, contraventores e do crime organizado. O encontro destas distintas formações sociais com os processos de catalização propiciados pela infraestrutura digital já podem ser notados, como vimos até aqui, enquanto expressão da avançada degradação e fragmentação do tecido social, já esgarçado pelas distintas crises presentes. Dentro de um paradigma onde a escassez torna-se a ordem do dia e do futuro degradado, a digitalização revela-se meio e fim para a radicalização das formas de dominação ligadas ao controle, extorsão, pilhagem e privatização paramilitar da proteção e da segurança. O horizonte que se desenha é então de exploração máxima do decaimento social através dos meios digitais, que revelam-se hoje verdadeiros empreendimentos de regressão.
Um dos exemplos mais expressivos de como essa dinâmica está permeada na cultura digital é a emergência de influenciadores de guerra, como Alexander Kotz e Semyon Pegov, conhecido como WarGonzo. Eles revelam a monetização da guerra por influenciadores que produzem desde conteúdos propagandísticos militares até divulgação de criptomoedas, cobrando valores específicos para parcerias em postagens. Também o uso de avatares gerados por IAs se propaga, desde a propaganda militar até seu uso para “reviver” parentes falecidos na guerra — algo semelhante ao serviço dos griefbots.
Todos esses elementos revelam como a tessitura do digital fornece um campo de completa transformação dos meios, fins e formas, das técnicas e da própria gramática da guerra, na medida que interferem do armamento à propaganda, do recrutamento ao luto, passando pela própria forma como são produzidos os imaginários bélicos e a organização da militarização contemporânea. Sem compreendermos a digitalização, não é possível compreendemos a condição atual da guerra hoje. Mas o oposto não só é verdadeiro, como talvez seja ainda mais fundamental: sem compreendermos a condição atual da guerra hoje, talvez não seja possível compreendermos o que é, de fato, o processo de digitalização – que integra e dissolve ainda mais as fronteiras entre esfera civil e militar.
(*) Cian Barbosa é flamenguista e morador do Rio de Janeiro. Bacharel em sociologia (UFF), doutorando em filosofia (UNIFESP) e psicologia (UFRJ), pesquisa teoria do sujeito, crítica da cultura, violência, tecnologia, ideologia e digitalização; também é integrante da revista Zero à Esquerda, tradutor e ensaísta, além de professor e coordenador do Centro de Formação.



