Gordura no fígado pode evoluir sem sintomas e pequenas alterações em exames já merecem investigação
São Paulo, abril de 2026 – No Dia Mundial do Fígado, celebrado em 19 de abril, a atenção se volta para uma condição cada vez mais comum e silenciosa: a esteatose hepática, conhecida como gordura no fígado. A doença já afeta cerca de um terço da população mundial¹ e pode evoluir para quadros mais graves, como cirrose, câncer hepático e necessidade de transplante.
No Brasil, o alerta também aparece nos dados. Em 2024, o país registrou 2.454 transplantes de fígado, o maior número já realizado, segundo o Sistema Nacional de Transplantes. O órgão é o quarto mais transplantado no país.
Segundo a Dra. Carolina Pimentel, gastroenterologista e hepatologista e coordenadora da pós-graduação em Gastroenterologia da Afya Educação Médica São Paulo, a principal preocupação é que a doença costuma evoluir sem sintomas. “A esteatose pode ser considerada uma doença silenciosa. Muitas vezes, o paciente não sente nada, e quando aparecem manifestações, a doença já está mais avançada”, explica.
A especialista destaca que a condição está relacionada à síndrome metabólica, que inclui obesidade, diabetes, colesterol elevado e aumento da circunferência abdominal. Por isso, a investigação não deve depender apenas da presença de sintomas. “Se a pessoa não faz avaliação laboratorial e exames adequados, a doença pode passar despercebida e, quando se percebe, o paciente já pode ter uma doença mais avançada”, afirma.
Outro ponto de atenção é que qualquer nível de gordura no fígado já deve ser acompanhado. Por muitos anos, a condição foi considerada uma alteração sem grande relevância, mas hoje é vista como marcador de risco metabólico e cardiovascular. “Por muito tempo, a esteatose foi considerada algo sem importância, mas hoje sabemos que ela pode evoluir para cirrose, câncer de fígado e até transplante”, explica a médica.
Alterações discretas em exames também não devem ser ignoradas. Mesmo pequenas mudanças nas enzimas hepáticas TGO e TGP podem indicar a necessidade de investigação. “Às vezes, os valores estão só um pouquinho alterados, mas isso não significa que não precise investigar. Muitas vezes, esses são os primeiros sinais”, afirma.
O que colocar no prato e o que tirar
Quando o assunto é alimentação, a Dra. Carolina desfaz um mito comum: o principal vilão não é a gordura, mas o carboidrato em excesso, especialmente a frutose industrializada presente em ultraprocessados. “O impacto desse tipo de carboidrato no acúmulo de gordura no fígado supera até o da gordura de origem animal”, explica. Por isso, reduzir refrigerantes, sucos industrializados, biscoitos e produtos ultraprocessados é uma das medidas mais eficazes.
No lado positivo do prato, a especialista recomenda priorizar fibras, azeite de oliva, peixes e carnes brancas, pilares de uma alimentação equilibrada que favorece a saúde hepática. A prática regular de atividade física também é fundamental, pois ajuda a reduzir a gordura visceral, diretamente associada ao acúmulo de gordura no fígado. Para quem já tem diagnóstico de esteatose, o álcool deve ser cortado mesmo em pequenas quantidades, dado o risco elevado de complicações.
Cuidado com o que parece natural
A especialista também alerta para o uso de dietas radicais, chás e suplementos sem orientação médica. A percepção de que produtos naturais são sempre seguros pode levar a riscos sérios. “A gente tem uma cultura de que plantas e chás são sempre aliados, mas já vimos situações de hepatite fulminante e até transplante por conta do uso de ervas que o paciente achava que estavam ajudando”, afirma. A diferença, explica a médica, está no controle: um medicamento tem dosagem conhecida; uma planta, não.
De acordo com a Dra. Carolina, a melhor forma de proteger o fígado é investir em hábitos consistentes e acompanhamento médico periódico. “O fígado é um órgão resiliente, mas pequenas mudanças no dia a dia podem fazer uma diferença importante na prevenção”, conclui.
Fonte¹: Global Prevalence of Nonalcoholic Fatty Liver Disease: An Updated Review Meta-Analysis comprising a Population of 78 million from 38 Countries https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39094335/
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