Por Raquel Lopes, João Gabriel e Pedro Ladeira
(Folhapress) – Facções criminosas, milícias, empresários e investidores ligados ao mercado financeiro estão entre os grupos que financiam, exploram ou lucram com o garimpo ilegal, segundo investigações da Polícia Federal e do Ministério Público Federal.
A composição dessa cadeia varia de uma região para outra do país e esses atores não necessariamente realizam ações em conjunto.
O diretor da Damaz (Diretoria da Amazônia e Meio Ambiente) da Polícia Federal, Humberto Freire de Barros, afirma que a extração ilegal de ouro opera em escala industrial, sustentada por investimentos milionários em aeronaves, escavadeiras, dragas, combustível e uma complexa estrutura logística.
“Não estamos falando de uma atividade artesanal. Existe uma cadeia econômica robusta por trás desses empreendimentos, que demanda capital elevado e uma complexa estrutura logística”, afirma.
Segundo Freire, as investigações identificaram a presença do PCC (Primeiro Comando da Capital), do Comando Vermelho e de grupos criminosos regionais em diferentes áreas de garimpo.
Em alguns locais, essas organizações controlam o território e impõem regras aos trabalhadores; em outros, limitam-se ao fornecimento de armas, drogas ou segurança.
Atualmente, não existe um levantamento nacional capaz de apontar em quais garimpos as facções estão presentes, quais grupos atuam em cada localidade ou o grau de influência exercido por eles.
“Não é raro a gente receber relatos de grupos criminosos invadindo garimpos ilegais controlados por outros grupos para roubar, inclusive o minério já extraído”, afirma Freire.

Um dos principais exemplos é a Terra Indígena Sararé, em Mato Grosso, que recebeu parte da migração da atividade após o aumento da fiscalização em outras regiões da amazônia.
Como tem mostrado a série A Nova Rota do Ouro, o garimpo ilegal se expandiu durante o governo de Jair Bolsonaro (PL). Em 2020, os novos alertas identificados por monitoramento de satélite de garimpo somaram 5.473 hectares. No ano seguinte, a área saltou para 23.967 hectares.
Desde 2023, a gestão Lula (PT) intensificou as operações de combate à atividade em determinadas regiões, como na Terra Indígena Yanomami. Mais de 9.000 operações no território e em seu entorno contribuíram para uma redução de 99% nas áreas de garimpo ilegal.
Naquele ano, os novos alertas somaram 14.115 hectares, uma queda de 41,11% em relação a 2022, ano com maior número de novos alertas do governo Bolsonaro. Os dados, no entanto, indicam que o garimpo também mudou de rota, avançando sobre áreas com menor presença da fiscalização.
Relatórios operacionais da Força Nacional obtidos pela reportagem indicam que integrantes do Comando Vermelho exercem controle territorial em áreas de exploração e disputam espaço com milícias em Sararé.
Em maio, David Gabriel Araújo Santana, o DG, suspeito de ser integrante do Comando Vermelho e foragido por homicídio qualificado, foi detido em Pontes e Lacerda (MT). A Folha buscou processos na Justiça relacionados a Santana na tentativa de localizar advogados que pudessem representá-lo, mas não conseguiu encontrar sua defesa.
Operações de Força Nacional, PRF (Polícia Rodoviária Federal), Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) e Funai (Fundação Nacional dos Povos Indígenas) localizaram no garimpo Serra da Taca uma mochila com munições de diversos calibres, atribuída a lideranças do Comando Vermelho em Pontes e Lacerda (MT).
Segundo investigadores, o uso de armamento pesado, como fuzis, é recorrente em determinados garimpos, abastecidos pelas próprias facções com armas e drogas.
Em Roraima, investigadores também apontam a atuação de integrantes do PCC e do Comando Vermelho.
Na capital, Boa Vista, um homem diz ter trabalhado de 2018 a 2023 no transporte de cargas para facções em garimpos ilegais. Sob condição de anonimato por questões de segurança, ele relatou à reportagem que embarcações levavam combustível, mantimentos, drogas e armamento, como fuzis e até submetralhadoras, que ele chama de “macaquinha”.
Segundo ele, as drogas também chegavam por via aérea e eram lançadas no trajeto para evitar fiscalizações.
Documentos do Ministério Público Federal apontam que, na região do rio Puruê —no norte do estado do Amazonas, fronteira entre Brasil e o sul da Colômbia—, cerca de 200 dragas, usadas para sugar e remover grandes volumes de sedimentos do fundo de rios em busca de metais, operam sob a coerção de dissidências das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia).
Essas organizações exercem o controle territorial e cobram propina de garimpeiros brasileiros para permitir a exploração em território nacional e colombiano.
Investigações também citam a participação de milícias e agentes públicos na exploração ilegal de recursos minerais.
No 19º Ofício da Procuradoria da República no Amazonas, responsável pelo enfrentamento à mineração ilegal em Amazonas, Acre, Roraima e Rondônia, há nove processos ou procedimentos com participação ou suspeita de envolvimento de integrantes ou ex-integrantes das forças de segurança. Os casos estão em diferentes fases. Em três ações penais, agentes de segurança figuram como réus.
Em Roraima, operações miraram policiais suspeitos de fornecer armas para garimpos ilegais e grupos envolvidos na negociação de armamentos destinados à atividade.
Segundo o chefe da Delegacia de Meio Ambiente da Polícia Federal em Roraima, Pedro Henrique dos Santos Duarte, a atuação de grupos criminosos ligados ao garimpo perdeu força com a redução da atividade ilegal no estado.
Em 2022, no pico de novas áreas de garimpo, Roraima concentrava 5,91% dos novos alertas detectados por satélite no país. Em 2025, essa participação havia caído para 0,23% —uma redução de 96% em relação ao percentual registrado três anos antes.
Em março do ano passado, uma operação prendeu o major da Polícia Militar Ney Raimundo Alvarez Sampaio, suspeito de fornecer armas de fogo para garimpos ilegais no estado.
O advogado Leandro Farias, que faz a defesa de Sampaio, disse que o policial é da reserva remunerada e nunca fez nada de ilícito durante toda a sua vida. “O que existe é indício, não existe materialidade. O senhor Ney nunca vendeu, comercializou e negociou nada de venda de armas para garimpo”, disse, em nota.

As apurações apontam empresários responsáveis por financiar a atividade com aeronaves, empresas de fachada e estrutura logística. Um dos investigados é Rodrigo Martins de Mello, conhecido como Rodrigo Cataratas, apontado como um dos principais financiadores do garimpo ilegal na Terra Indígena Yanomami.
Com mandado de prisão em aberto e diante do aumento da pressão das autoridades sobre os garimpos em território brasileiro, Cataratas passou a atuar na Guiana. A reportagem o procurou, por mensagem enviada pelo WhatsApp em julho, mas não obteve resposta.
Se em uma ponta há o garimpo ilegal nas florestas, a outra parte da estrutura aponta para empresas que operam no mercado financeiro em São Paulo.
Um dos casos mais famosos é o das operações da PF que tiveram como alvo o grupo liderado pelo empresário Dirceu Sobrinho, conhecido como Rei do Ouro e preso em 2022.
A Folha tentou localizar a defesa dele e procurou, por mensagem de WhatsApp, dois advogados que constavam em processos relacionados ao seu nome. Ambos afirmaram que não o representam. A reportagem não conseguiu localizar sua defesa.
As investigações, que começaram em Rondônia, apreenderam 77 kg de ouro, que à época foi cotado em R$ 23 milhões, no interior de São Paulo e acabaram revelando uma estrutura com braços no mercado financeiro paulista.
Segundo as apurações, a FD Gold (uma distribuidora de títulos de Sobrinho) “esquentaria” o ouro e depois o revenderia para a BP Trading (fundada por ex-sócios do Banco Paulista), que exportaria o minério para fora do país. As duas empresas sempre negaram qualquer irregularidade. Procuradas novamente nesta semana por email divulgado no site, não houve resposta.
Freire afirma que a PF passou a investigar obrigatoriamente o fluxo financeiro dos crimes ambientais para identificar e bloquear os financiadores. Segundo ele, mandados já foram cumpridos na Faria Lima, em São Paulo, e em condomínios de alto padrão em Campinas e outros estados.
Fonte: ICL Notícias


