José Múcio confundiu defesa nacional com lobby por orçamento

Compartilhe:


Por Cleber Lourenço

“Temos que abrir o portão.”

A frase do ministro da Defesa, José Múcio, talvez entre para a história como uma das mais simbólicas já pronunciadas por alguém que ocupa justamente o cargo responsável por pensar a defesa do país.

A intenção era justificar mais investimentos nas Forças Armadas. O efeito foi outro: revelar, diante de todo o país, que a política de defesa brasileira continua sem rumo.

É curioso observar como, sempre que o tema defesa nacional surge no debate público, a primeira resposta de parte da cúpula militar e do próprio Ministério da Defesa é a mesma: falta dinheiro.

É uma resposta confortável.

Porque transfere para o orçamento toda a responsabilidade por problemas que, em grande medida, são consequência da ausência de planejamento, de integração e de visão estratégica.

O próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva, durante a convenção nacional do PT, afirmou que o Brasil precisa investir mais em suas Forças Armadas. É um debate legítimo. Um país com dimensões continentais, dono da Amazônia, da Amazônia Azul, de fronteiras extensas e de riquezas estratégicas não pode tratar sua defesa como assunto secundário.

Mas antes de mais dinheiro, perguntas precisam ser respondias: investir em quê? Em qual projeto? Em torno de qual estratégia?

Porque o que se vê hoje está longe de ser uma política nacional de defesa consistente.

Basta lembrar de um episódio recente. Quando Lula reuniu os comandantes militares para discutir as necessidades das Forças Armadas, o governo esperava receber um planejamento integrado, prioridades comuns e uma visão estratégica de Estado. Recebeu exatamente o contrário.

Cada Força apresentou sua própria lista de reivindicações. Marinha, Exército e Aeronáutica chegaram com demandas isoladas, disputando espaço no orçamento como se fossem três estruturas independentes concorrendo entre si, e não partes de um mesmo sistema de defesa nacional. A cena dizia muito.

Enquanto outros países discutem guerra cibernética, integração de capacidades, inteligência artificial, satélites, interoperabilidade e doutrina conjunta, o Brasil ainda parece preso à lógica do “cada um por si”.

Não é apenas um problema administrativo. É um problema estratégico. E estratégia não se compra.

Compra-se um caça. Compra-se um submarino. Compra-se um blindado.

Mas nenhuma dessas aquisições produz, por si só, uma capacidade nacional de defesa.

Essa capacidade nasce de planejamento, de integração entre as Forças, de definição clara das ameaças prioritárias e, principalmente, de uma doutrina construída para defender os interesses do Brasil.

Esse talvez seja o debate mais negligenciado de todos.

Durante décadas, a formação militar brasileira foi moldada sob forte influência da Guerra Fria e da lógica do inimigo interno. O resultado foi uma cultura institucional que, muitas vezes, dedicou mais energia a olhar para dentro do país do que para os desafios externos que realmente deveriam orientar uma política moderna de defesa.

Ao mesmo tempo, o Brasil aprofundou relações de cooperação com os Estados Unidos por meio de cursos, intercâmbios, treinamentos e exercícios conjuntos. Cooperação internacional faz parte da rotina de qualquer força armada moderna. O problema surge quando ela substitui o desenvolvimento de um pensamento estratégico genuinamente nacional.

Uma potência regional não pode depender de referências externas para pensar sua própria defesa. E também não pode acreditar que soberania se resume ao tamanho do orçamento. Foi justamente aí que José Múcio errou.

Ao dizer que, diante de uma invasão americana, o Brasil teria de abrir o portão, o ministro perdeu a oportunidade de iniciar uma discussão séria sobre a reconstrução da política nacional de defesa.

Preferiu transformar uma reflexão estratégica em argumento para pedir mais recursos.

Confundiu defesa nacional com lobby por orçamento.

O Brasil, de fato, precisa investir mais em defesa.

Mas precisa, antes de tudo, decidir o que quer defender, como pretende fazê-lo e quais capacidades deseja construir nas próximas décadas.

Sem isso, qualquer aumento de verba corre o risco de apenas financiar estruturas que continuam falando linguagens diferentes, planejando isoladamente e olhando mais para o retrovisor da Guerra Fria do que para os desafios do século XXI.

Portão nenhum resolve esse problema.

Nem aberto.

Nem fechado.





Fonte: ICL Notícias

Outras Notícias

Domínio Global Consultoria Web