Santista de voz potente foi sucesso nos Estados Unidos, fez mais de 700 apresentações no exterior e, ainda assim, teve carreira marcada por preconceito e esquecimento
Por: Letícia Cruz
REVISTA FORUM
– Leny na capa do disco “A Internacional”, de 1959. LP reunia canções brasileiras e estrangeiras, em inglês e italiano (Divulgação/RGE/Sony)
Antes de cantar para plateias em Las Vegas, Paris e Nova York, antes de aparecer ao lado de Elvis Presley na televisão americana e muito antes de ser apresentada pela imprensa como a brasileira que havia conquistado os Estados Unidos depois de Carmen Miranda, Leny Eversong era uma menina de Santos que cantava em inglês, sem saber falar inglês.
Seu nome era Hilda Campos Soares da Silva. Aos 12 anos, ela já se apresentava na Rádio Clube de Santos e havia ganhado o apelido de “Princesinha do Fox”, graças à familiaridade com um gênero musical americano que aprendera de ouvido. A voz, desde cedo, era o seu passaporte. O resto da vida, porém, seria muito menos simples.
Aos 13 anos, perdeu a mãe e, dois anos depois, perdeu o pai. O primeiro casamento veio poucos dias depois da morte dele e, segundo relatos reunidos pelo jornalista e historiador Rodrigo Faour em seu livro “A incrível história de Leny Eversong ou A cantora que o Brasil esqueceu”, Hilda acabou descobrindo que o marido mantinha outra família.
Teve um filho com ele, deixou o casamento e perdeu a guarda da criança, e Leny só podia vê-lo uma vez por mês durante anos. Depois do nascimento do filho Álvaro, em 1941, Leny passou por um desequilíbrio hormonal que provocou um rápido e expressivo ganho de peso. Até então, revistas e jornais da época a tratavam como uma das mulheres mais bonitas de Santos.
Depois disso, a mudança nas manchetes a colocando recorrentemente em imagens cômicas, entre comidas e balanças, predizia pelo o que seria definida pelo resto de sua vida.
Foi nessa época que surgiu Leny Eversong. Um radialista de Santos criou o nome artístico que, por soar internacional, ganhou o mundo. “Eversong” remetia à ideia de “canção eterna”.
A menina que já cantava como se tivesse uma carreira inteira pela frente ganhou uma identidade profissional e continuou tentando encontrar seu lugar no rádio.
O sucesso, porém, demorou. Leny passou pelo Rio de Janeiro, cantou na Rádio Tupi, apresentou-se no Cassino da Urca e no Copacabana Palace e voltou para São Paulo. Gravou a partir de 1942 e trabalhou como crooner de orquestras e também como radioatriz.
Era uma habilidade incomum: ela aprendia as músicas em inglês pela audição e reproduzia as letras foneticamente. E, em vez de ser um obstáculo, isso acabaria se transformando em uma das marcas de sua carreira.
Estrela quase desistiu
Leny chegou aos 35 anos sem ter conseguido transformar seu talento em independência financeira. A vida profissional parecia estar sempre a um passo de acontecer, mas nunca acontecia de fato. Em 1955, porém, veio a oportunidade que mudaria tudo.
Ela foi convidada para participar da inauguração da Rádio Mundial, no Rio de Janeiro. Seu segundo marido chegou a tentar convencê-la a não ir, mas Leny insistiu. Foi, e fez a apresentação que mudou a sua história, com a canção “Canta Brasil“.
A imprensa carioca passou a falar daquela mulher de voz gigantesca, presença teatral e aparência muito diferente do padrão das cantoras que dominavam o rádio. Em pouco tempo, os contratos começaram a aparecer.
A cantora que estava pensando em abandonar a carreira passou a ser disputada pelas emissoras e tornou-se uma das artistas mais bem pagas do rádio brasileiro.
Leny começou a fazer apresentações fora do país e, em 1956, chegou aos Estados Unidos. Sua carreira americana duraria pouco mais de três anos, mas seria suficiente para transformá-la na cantora brasileira mais conhecida nos palcos americanos depois de Carmen Miranda, segundo a avaliação de Faour.
O próprio pesquisador sustenta que, entre a fase de Carmen e a explosão da Bossa Nova, nenhum outro artista brasileiro teve projeção internacional comparável à dela. Foram mais de 700 shows no exterior.
Na época, a comparação com Carmen não era apenas retrospectiva. Uma publicação brasileira de 1957 chegou a apresentar Leny como a segunda brasileira a “vencer os americanos”, depois da “pequena notável”.
Leny tinha, portanto, encontrado um caminho que parecia improvável: uma santista que não falava inglês havia conquistado um mercado estrangeiro cantando justamente naquele idioma.
De uma balança de farmácia a Las Vegas
O sucesso não fez a imprensa brasileira abandonar uma obsessão que acompanharia Leny durante praticamente toda a carreira: seu corpo.
Em vez de simplesmente falar sobre sua voz, revistas e jornais frequentemente transformavam seu peso em assunto. Uma reportagem da Radiolândia, em 1956, chegou a colocá-la sobre uma balança para ilustrar a notícia de que ela recebera uma proposta milionária para trabalhar nos Estados Unidos. O tom era de piada.
Esse tipo de tratamento se repetiria durante anos. Leny chegou a pesar 124 quilos e foi constantemente apresentada como “a gorda que canta” ou “a gorda que canta bem”, segundo a pesquisa de Faour. A cantora, muitas vezes, entrava na brincadeira — posava ao lado de comida, de garrafas, em balanças — provavelmente porque havia percebido que a imprensa falaria de seu corpo de qualquer maneira.
O problema é que a mesma mulher que virava personagem de piadas no Brasil estava sendo recebida como uma grande cantora nos Estados Unidos.
Em Las Vegas, Leny encontrou espaço para sua voz. Também passou por Los Angeles e Nova York. Fez temporadas, gravou discos e trabalhou com músicos ligados a grandes nomes da música americana.
E então aconteceu o episódio que transformaria sua carreira em uma espécie de fotografia histórica.
No lugar e na hora certa
Em janeiro de 1957, Leny foi ao The Ed Sullivan Show, um dos programas de variedades mais importantes da televisão americana. Sua participação ocorreu no mesmo episódio da terceira e última aparição de Elvis Presley no programa. As apresentações dos dois foram intercaladas.
Há fotografias de Leny ao lado de Elvis e de Ed Sullivan nos bastidores daquela noite, e uma delas registra os três depois dos ensaios. Não foi um encontro entre duas celebridades equivalentes em retrospecto. Elvis ainda estava construindo o mito que se tornaria. Leny, por sua vez, já era uma estrela internacional.
Para Leny, aquela aparição em que cantou “El Cumbanchero” abriu ainda mais portas. Ela continuou circulando pelos Estados Unidos e pela Europa e chegou a se apresentar em Paris. Em 1958, cantou no Olympia. Na França, participou de um programa semanal chamado Aquarela do Brasil, voltado à divulgação de artistas brasileiros.
Mas até no exterior havia uma curiosa dificuldade de identidade. Por cantar em inglês, Leny às vezes era anunciada como americana. No Brasil, acontecia quase o contrário, e era questionada por não cantar suficientemente “como brasileira”.
Brasileira demais para uns, americana demais para outros
Nos anos 1950, a ideia de brasilidade estava fortemente associada ao repertório nacional. Leny, porém, havia construído sua carreira internacional cantando músicas familiares aos americanos, franceses, espanhóis e italianos.
Mas ela gravou também compositores brasileiros e incluiu canções nacionais em seu repertório. O problema, segundo Faour, era que seus empresários estrangeiros acreditavam que a música brasileira não tinha mercado em determinados países. A própria cantora reclamava de ter de insistir para conseguir colocar canções brasileiras em seus discos.
Justamente o repertório internacional que havia permitido a Leny conquistar o mundo ajudava a fazer com que ela fosse considerada menos brasileira em seu próprio país.
Enquanto isso, seu corpo continuava sendo usado como argumento.
A imprensa chegou a publicar que cantoras bonitas deveriam fazer regime para não sofrer os efeitos que a gordura provocaria sobre a voz. Em outra ocasião, Leny e a cantora Angela Maria, sua amiga pessoal, foram fotografadas em meio a panelas e comida, numa matéria que apresentava as duas como “as grandes cantoras do momento”.
Anos depois, Faour encontraria dezenas de exemplos semelhantes em sua pesquisa e identificaria a gordofobia e o nacionalismo como dois fatores importantes para entender por que uma cantora tão bem-sucedida não permaneceu no cânone da música brasileira.
Leny tentou, inclusive, mudar a própria imagem. Na década de 1960, submeteu-se a uma cirurgia plástica e perdeu dezenas de quilos em poucos meses. O resultado, porém, teria provocado uma reação curiosa de seu próprio empresário: ele teria pedido que ela recuperasse peso porque o público poderia não reconhecê-la.
A imprensa encontrou outra forma de transformar aquilo em piada. Quando Leny voltou a se apresentar em Nova York depois de emagrecer, uma matéria publicou o título: “A mesma voz em menos espaço”.
Outros tempos
Durante os anos 1960, continuou trabalhando no Brasil. Atuou no cinema, no teatro e na televisão, participou de festivais e gravou um especial para a CBS americana em 1968. Também dividiu um show com Cauby Peixoto no Rio, que acabou registrado em disco. Porém, o país já estava ouvindo outra música.
A geração das grandes cantoras de voz poderosa começava a perder espaço para novas formas de cantar. A Bossa Nova havia surgido e projetava internacionalmente uma imagem diferente da música brasileira. Depois viriam a MPB, o rock e outras transformações que alterariam completamente o mercado.
Sua carreira, que havia chegado tão alto tão rapidamente, começou a perder altitude. Então, em 1973, durante uma temporada em Buenos Aires, Leny recebeu a notícia de que o marido havia desaparecido. Francisco Luís Campos Soares da Silva teria saído de casa em 4 de agosto daquele ano com destino ao Guarujá. Nunca chegou, e o caso jamais foi esclarecido.
A partir daí, a história de Leny ganha contornos quase policiais. Surgiram diferentes hipóteses sobre o desaparecimento, algumas envolvendo a repressão da ditadura e outras levantadas posteriormente por pessoas próximas à cantora. Como não há comprovação definitiva para essas versões, elas permanecem como hipóteses, não como explicação estabelecida para o caso.
O desaparecimento, entretanto, teve uma consequência concreta.
Grande parte do dinheiro acumulado por Leny ao longo de quase duas décadas de sucesso estava ligado ao patrimônio do marido. Sem uma declaração formal de morte, ela enfrentou dificuldades para acessar os recursos. A mulher que havia recebido grandes cachês e se apresentado nos palcos mais importantes do exterior passou a enfrentar problemas financeiros.
Leny fez participações na televisão, mas já não ocupava o mesmo espaço. Segundo Ângela Maria, que conviveu com Leny nos palcos e programas de televisão, o desaparecimento do marido marcou uma mudança profunda na vida da cantora.
“Ela fez questão de desaparecer do mapa. Ninguém sabia onde ela vivia”, contou Ângela a Rodrigo Faour, em 2000.
Uma artista que o Brasil não deveria ter esquecido
Em 1983, um ano antes de morrer, Leny apareceu no programa Onde Anda Você, do SBT. Ela estava vivendo de favor na casa de uma amiga.
Tinha diabetes, enfrentava dificuldades financeiras e havia vendido bens e discos de ouro para conseguir comprar comida, segundo o programa recuperado na pesquisa sobre sua trajetória.
Foi ali que Leny falou sobre o ressentimento que carregava do país. Apesar de ter sido premiada no exterior. conquistado público, crítica e fama internacional. No Brasil, porém, sentia que sua carreira nunca havia recebido o mesmo reconhecimento.
Leny morreu em 29 de abril de 1984, aos 63 anos. Três anos depois, o marido foi oficialmente declarado morto e os recursos que estavam bloqueados puderam finalmente ser liberados. O episódio encerrava, de maneira tardia, uma das tragédias pessoais que marcaram os últimos anos da cantora.
Quem ajudou a recuperar essa história foi justamente alguém que se recusou a aceitar esse esquecimento. Rodrigo Faour conheceu a voz de Leny ainda jovem, quase por acaso, e passou décadas reunindo discos, fotografias, recortes e documentos sobre a cantora.
A pesquisa acabou se transformando em uma dissertação de mestrado e, em 2023, no livro biográfico, publicado pelas Edições Sesc.


