MARÍLIA QUE “CUIDA”? FAMÍLIA DE MULHER COM QUEIMADURAS GRAVES PEDE SOCORRO PARA CONSEGUIR TRANSFERÊNCIA

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Enquanto políticos investem em vídeos e slogans nas redes sociais, uma família enfrenta a corrida contra o tempo para conseguir tratamento especializado para uma paciente em estado gravíssimo

MARÍLIA — Existe a Marília dos vídeos de TikTok, dos discursos políticos e dos slogans cuidadosamente produzidos para vender a imagem de uma cidade moderna, acolhedora e que “cuida”.

E existe a Marília real.

A Marília de uma família desesperada, procurando ajuda para conseguir uma transferência hospitalar para uma mulher que sofreu queimaduras graves em grande parte da parte superior do corpo e permanece internada em estado gravíssimo.

Segundo relato divulgado pelo Portal Tribuna News, a paciente sofreu queimaduras que atingiram tórax, costas, pescoço, rosto e couro cabeludo. Após o atendimento inicial, ela foi encaminhada ao Hospital das Clínicas de Marília. A família busca, por meio do sistema CROSS, uma vaga em unidade especializada.

A situação é particularmente angustiante porque o tratamento de grandes queimados exige estrutura especializada. E existe uma questão que não pode ser ignorada: a rede regional possui oferta limitada de leitos para esse tipo de atendimento.

Dados disponíveis sobre a região mostram justamente a insuficiência histórica de vagas especializadas. Em levantamento anterior, a região de Marília contava com apenas oito vagas especializadas para atender dezenas de municípios, enquanto Bauru possuía quatro leitos em sua unidade de queimados.

A MARÍLIA DO TIKTOK NÃO É A MARÍLIA DA FAMÍLIA

É aqui que o discurso político precisa encontrar a realidade.

É fácil produzir vídeo bonito.

É fácil gravar um TikTok.

É fácil colocar música, imagens da cidade, obras, inaugurações, sorrisos e frases de efeito.

Difícil é responder quando uma família bate às portas do sistema público precisando de uma estrutura que pode representar a diferença entre a vida e a morte.

Onde está a cidade que cuida?

Essa pergunta não é provocação.

É cobrança.

Porque uma família que enfrenta uma emergência médica não precisa de propaganda.

Precisa de atendimento.

Precisa de vaga.

Precisa de regulação funcionando.

Precisa de estrutura.

Precisa de autoridades mobilizadas.

POLÍTICO PRECISA PARAR DE FAZER CAMPANHA ANTES DA HORA

E existe outro problema que precisa ser colocado sobre a mesa.

Enquanto uma família enfrenta uma situação dramática, parte da classe política parece cada vez mais preocupada com eleições, candidaturas, projeção pessoal e construção de imagem nas redes sociais.

Marília tem políticos interessados em ser deputados?

Tudo bem.

É legítimo disputar eleições.

Mas antes de pedir voto, existe uma obrigação muito mais básica:

resolver os problemas de quem já vive aqui.

Não adianta querer representar Marília em Brasília se não se consegue representar adequadamente a população diante dos problemas concretos que ela enfrenta agora.

Uma família pedindo ajuda para uma transferência hospitalar deveria provocar uma mobilização imediata de todos os agentes públicos capazes de ajudar.

Prefeitura.

Secretaria de Saúde.

Vereadores.

Deputados.

Governo do Estado.

Representantes políticos.

Todos deveriam estar atrás de uma resposta.

NÃO É HORA DE FOTO. É HORA DE AÇÃO.

A família não precisa de político posando ao lado da paciente.

Não precisa de publicação comemorando uma ligação telefônica.

Não precisa de promessa.

Não precisa de discurso.

Precisa de resultado.

E há uma diferença enorme entre aparecer e resolver.

A rede pública possui mecanismos de regulação justamente para organizar o acesso aos serviços especializados. O Hospital Estadual de Bauru, por exemplo, informa que seu atendimento é referenciado e que a regulação das vagas é feita pela CROSS; no caso da Unidade de Tratamento de Queimaduras, o serviço atende pacientes de todo o Estado conforme a disponibilidade regulada.

Portanto, o debate não deveria ser transformado simplesmente em “Marília tem ou não tem hospital”.

A pergunta é mais séria:

a estrutura regional disponível é suficiente para atender uma população que depende dela?

A SAÚDE NÃO PODE SER CENÁRIO DE PROPAGANDA

Grandes queimados precisam de atendimento altamente especializado.

A própria Santa Casa de Marília já descreveu sua Unidade de Tratamento de Queimados como serviço de alta complexidade destinado aos casos graves, com leitos regulados por uma central estadual.

Isso mostra que o problema é mais complexo do que simplesmente apontar o dedo para um único gestor.

Mas justamente por ser complexo, exige planejamento público permanente.

Não adianta esperar a tragédia acontecer para descobrir que faltam vagas.

Não adianta esperar uma família pedir socorro nas redes sociais para então procurar uma solução.

A saúde pública precisa trabalhar antes da emergência.

E OS POLÍTICOS?

A pergunta deveria ser dirigida a todos os representantes públicos:

O que vocês estão fazendo neste momento para ajudar essa paciente?

Quem tem contato com autoridades estaduais está acionando esses canais?

Quem tem acesso à Secretaria de Estado da Saúde está cobrando uma resposta?

Quem tem mandato está usando sua influência institucional para tentar destravar a situação?

Quem pretende ser candidato a deputado está demonstrando agora que pretende representar Marília?

Porque mandato não deveria ser apenas trampolim eleitoral.

Mandato é responsabilidade.

MARÍLIA NÃO PRECISA DE SLOGAN. PRECISA DE CUIDADO DE VERDADE.

“Cidade que cuida” é uma frase bonita.

Mas cuidado de verdade não se mede pelo número de visualizações de um vídeo.

Mede-se pelo atendimento prestado.

Pela vaga encontrada.

Pela ambulância disponível.

Pelo medicamento entregue.

Pela cirurgia realizada.

Pela transferência conseguida.

Pelo paciente que volta para casa.

Essa família agora está fazendo aquilo que nenhum cidadão deveria ser obrigado a fazer em uma situação de extrema vulnerabilidade:

pedir socorro publicamente para conseguir tratamento.

E isso deveria constranger toda a classe política.

Não para produzir mais um vídeo.

Mas para produzir uma solução.

A PERGUNTA QUE FICA

Enquanto políticos disputam espaço nas redes sociais e alguns já se movimentam pensando nas próximas eleições, uma mulher está internada em estado gravíssimo e sua família luta por uma transferência especializada.

Quem vai cuidar dela?

Porque Marília pode até continuar sendo chamada de “cidade que cuida”.

Mas, para essa família, cuidado agora não é slogan.

É uma vaga hospitalar. É tratamento. É vida.

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