O esporte precisa formar mais do que campeões, por Carlos Kirmayar e Daniel Brugin

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Quando uma criança começa a praticar um esporte, o que esperamos dela? Que vença competições, conquiste medalhas e se torne uma atleta de destaque? Ou que encontre nessa experiência uma oportunidade de desenvolver habilidades e valores que serão importantes durante toda a sua vida?

Essa reflexão ganha cada vez mais importância em uma sociedade que valoriza resultados rápidos, reconhecimento e desempenho. Desde cedo, crianças e adolescentes convivem com cobranças e comparações, muitas vezes estimuladas pelos próprios adultos. No esporte, essa pressão pode ser ainda mais evidente, especialmente quando o talento de um jovem desperta expectativas sobre seu futuro.

É natural querer vencer. A competição faz parte do esporte e pode ser um estímulo importante para a dedicação, a disciplina e a superação. O problema começa quando o resultado passa a ser o principal critério para avaliar o desenvolvimento de uma criança ou adolescente.

Uma vitória pode trazer alegria, confiança e motivação. Mas uma derrota também pode ensinar muito. É diante das dificuldades que o jovem aprende a lidar com frustrações, reconhecer suas limitações, respeitar adversários, assumir responsabilidades e encontrar forças para tentar novamente. São experiências que, quando bem conduzidas, ajudam a construir recursos emocionais importantes para enfrentar os desafios da vida adulta.

O esporte oferece um ambiente privilegiado para esse aprendizado porque coloca o jovem diante de situações concretas. Ele precisa respeitar regras, conviver com pessoas diferentes, compreender que seu esforço nem sempre será recompensado imediatamente e aceitar que existem fatores fora de seu controle. Aprende também que talento, sozinho, raramente é suficiente. Evoluir exige persistência, preparação, paciência e capacidade de aprender com os próprios erros.

Mas é importante reconhecer que esses valores não são desenvolvidos automaticamente. A prática esportiva, por si só, não garante a formação de pessoas mais equilibradas, responsáveis ou conscientes. Muito depende da maneira como essa experiência é conduzida.

Pais e mães têm uma participação decisiva nesse processo. Incentivar a prática esportiva é importante, mas é preciso tomar cuidado para que o entusiasmo não se transforme em cobrança excessiva. Uma criança não deve sentir que precisa vencer para corresponder às expectativas da família. O apoio deve permanecer mesmo quando os resultados não aparecem.

Os treinadores também exercem uma influência que ultrapassa o ensino das técnicas de uma modalidade. Além de preparar atletas para competir, eles participam da formação de pessoas. A maneira como reagem a um erro, conduzem uma derrota, reconhecem o esforço e estabelecem relações de respeito pode deixar marcas duradouras na vida de um jovem.

Outro aspecto fundamental é compreender que cada pessoa tem seu próprio tempo de desenvolvimento. Nem sempre quem apresenta os melhores resultados na infância será o atleta mais bem-sucedido no futuro. Comparações constantes e expectativas exageradas podem comprometer a confiança, a motivação e até o prazer de praticar uma atividade esportiva.

Também precisamos ampliar nossa compreensão sobre o que significa ser forte. Força não é apenas resistência física ou capacidade de suportar pressão. Envolve reconhecer emoções, saber pedir ajuda, manter o equilíbrio diante das adversidades e compreender que errar faz parte de qualquer processo de aprendizagem.

Abordamos essas questões no livro Mais que campeões: como o esporte pode formar jovens fortes, conscientes e preparados para a vida, fruto de um encontro de duas experiências complementares: a vivência de décadas no tênis de alto rendimento, como atleta e treinador, e o estudo do comportamento humano, da neurociência, da psicologia positiva e de práticas voltadas ao desenvolvimento pessoal.

Ao reunir essas perspectivas, procuramos mostrar que muitos dos desafios enfrentados por um atleta são semelhantes aos que encontramos em outras dimensões da vida. Saber lidar com a pressão, manter o compromisso mesmo quando a motivação diminui, tomar decisões, respeitar processos e aprender com os fracassos são competências importantes em qualquer profissão ou atividade.

Essa visão também exige repensar nossa relação com o sucesso. Vivemos cercados de exemplos de grandes conquistas, mas raramente conhecemos todos os obstáculos, dúvidas, renúncias e aprendizados que fizeram parte dessas trajetórias. Quando mostramos aos jovens apenas o resultado final, corremos o risco de transmitir uma ideia equivocada de que o sucesso é consequência imediata do talento ou de que fracassar significa não ter capacidade.

Precisamos ensinar que o desenvolvimento humano é um processo contínuo, construído por escolhas e atitudes cotidianas. Nem todos os jovens que praticam esportes se tornarão atletas profissionais. Na realidade, a grande maioria seguirá outros caminhos. Ainda assim, todos podem levar consigo experiências valiosas adquiridas nas quadras, nos campos, nas piscinas e em tantos outros ambientes esportivos.

Por isso, o compromisso de famílias, escolas, clubes e treinadores precisa ir além da formação de talentos. Devemos criar condições para que crianças e adolescentes desenvolvam autonomia, responsabilidade, confiança e respeito por si mesmos e pelos outros.

O Brasil tem uma enorme tradição esportiva e muitos exemplos de atletas que inspiram novas gerações. Podemos aproveitar essa força para ampliar o papel do esporte na educação e no desenvolvimento humano.

Medalhas e troféus são conquistas importantes e merecem ser celebrados. Mas existe um resultado que não aparece nos placares e que pode acompanhar uma pessoa por toda a vida: a capacidade de enfrentar desafios, conviver com as diferenças, aprender com os erros e continuar evoluindo.

Se conseguirmos proporcionar esse aprendizado aos nossos jovens, teremos alcançado uma das maiores vitórias que o esporte pode oferecer.

Carlos Kirmayr é ex-tenista profissional, treinador e ex-capitão da equipe brasileira da Copa Davis.

Daniel Brugin é mentor, autor, palestrante e pesquisador do comportamento humano, com atuação em desenvolvimento pessoal, liderança e comportamento.

Imprensa:

Fonte Assessoria de Comunicação

Paulo Viarti – paulo@fonte.com.br

Ricardo Carvalho – ricardo@fonte.com.br

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