O debate público no Brasil tem sido sistematicamente envenenado por uma escalada de agressividade e desrespeito que cruza, com frequência alarmante, as fronteiras da ética e do decoro parlamentar. Quando líderes e figuras públicas recorrem ao deboche de sequelas físicas, limitações corporais ou deficiências para atacar seus adversários políticos, o prejuízo não se limita à retórica partidária: atinge-se no peito a dignidade de mais de 18 milhões de brasileiros que vivem com algum tipo de deficiência. É imperativo e urgente declarar tolerância zero ao capacitismo na política.
O capacitismo — a discriminação e o preconceito estrutural que tratam pessoas com deficiência como inferiores, incompletas ou passíveis de ridicularização — não é um mero “excesso de linguagem” ou uma “provocação de calor de momento”. Trata-se de uma violência simbólica perversa que perpetua séculos de exclusão, invisibilidade e marginalização. Quando um representante eleito transforma uma amputação, uma limitação motora ou qualquer condição de saúde em chacota pública, ele autoriza e valida o preconceito nas ruas, nas escolas e nos locais de trabalho.
A gravidade do problema adquire contornos ainda mais dramáticos ao lembrarmos que expressiva parcela das deficiências físicas no Brasil decorre de acidentes de trabalho e de condições precárias de vida enfrentadas diariamente pela classe trabalhadora. Transformar as marcas do suor e do risco laboral em motivo de piada expõe não apenas uma profunda falta de empatia, mas um desprezo indisfarçável pelas dores da sociedade. O corpo do trabalhador que produz não pode ser o alvo da arrogância de quem se encastela no poder.
A democracia exige civilidade, debate de ideias e confronto de propostas. O recurso ao preconceito tátil e à agressão capacitista é a demonstração cabal de falência argumentativa. O Congresso Nacional, os tribunais e a própria sociedade civil precisam reagir com firmeza institucional diante de episódios desse calibre. Ações disciplinares nos conselhos de ética, responsabilização jurídica e o repúdio sumário nas urnas devem ser as respostas concretas a quem insiste em rebaixar a política ao nível da crueldade. Respeitar as pessoas com deficiência é o requisito mínimo para quem pretende representar o povo brasileiro.
Da Redação do Portal GPN


