Em pleno século XXI, ainda testemunhamos episódios que revelam o quanto a misoginia e a masculinidade tóxica insistem em se infiltrar na política brasileira. O caso recente em Marília, onde duas lideranças femininas foram impedidas de disputar uma vaga de deputada em favor de um candidato homem, é um retrato vergonhoso de como estruturas patriarcais seguem tutelando mulheres e negando-lhes o direito de protagonismo.
A Constituição Federal é clara: toda cidadã tem o direito de se candidatar e disputar eleições. Quando esse direito é sabotado por acordos políticos que silenciam vozes femininas, não estamos diante de mera estratégia eleitoral, mas de um ataque direto à igualdade de gênero. É um retrocesso democrático que expõe a fragilidade das instituições locais diante da pressão de grupos que ainda enxergam a política como território masculino.
Marília perdeu duas candidatas que poderiam trazer pautas próprias, experiências distintas e representatividade real. Ao substituí-las por um homem, a cidade não apenas empobrece seu debate político, mas também envia uma mensagem perigosa: a de que mulheres devem se contentar com papéis secundários, mesmo quando têm legitimidade e força para liderar.
Às eleitoras marilienses, fica o alerta: quem se beneficia dessa manobra demonstra pouco ou nenhum compromisso com as lutas femininas. Se houvesse respeito, não haveria rasteira. A política precisa de mais mulheres, não menos. Precisa de diversidade, não de exclusão.
É lamentável que, em vez de ampliar espaços, ainda se insista em restringi-los. Mas cada crítica, cada denúncia e cada voto consciente podem ser instrumentos de resistência. Que este episódio sirva de combustível para fortalecer a participação feminina e para lembrar que democracia sem mulheres é democracia incompleta.


