Uma reflexão sobre animais, companheirismo, escolhas e relações
Por Rosana Germano Colunista Social — Grupo Portal de Notícias (GPN)
Há aproximadamente seis meses, dois gatos começaram a aparecer por aqui.
Eu não sabia de onde tinham vindo e sequer sabia se um deles era macho ou fêmea. Por isso, comecei a chamá-lo de Melvin.
O outro, um gato preto, recebeu um nome que parecia combinar perfeitamente com seu comportamento: Arisco.
Bastava eu me aproximar e ele corria.
Não tentei pegá-los. Não tentei obrigá-los a ficar. Apenas comecei a oferecer alimento e, aos poucos, deixei que eles decidissem se queriam ou não se aproximar.
Recentemente, descobri que Melvin era, na verdade, Mel. Uma menina.
E, curiosamente, a nossa relação também começou a mudar.
Hoje, todas as noites, Mel procura um cantinho embaixo de uma pequena mesa que tenho na área de serviço. Coloco um acolchoado ali e ela vem dormir.
Ela encontrou naquele espaço um lugar seguro.
E eu comecei a pensar:
Será que fui eu que escolhi cuidar dela? Ou será que, de alguma maneira, ela escolheu ficar?
A ciência não afirma literalmente que os gatos “escolhem seus donos”. Mas estudos sobre comportamento felino mostram que eles possuem preferências individuais, participam ativamente das interações com os seres humanos e desenvolvem diferentes formas de vínculo e sociabilidade.
E isso me fez olhar para essa história de outra maneira.
Mel não chegou até mim de uma hora para outra.
Primeiro veio o alimento.
Depois, a presença.
Depois, a confiança.
E, agora, aquele pequeno acolchoado parece ter se transformado em um lugar que ela reconhece como seguro.
Com Arisco, o processo é diferente.
Ele continua arisco. Ainda observa de longe. Ainda mantém seus limites.
Mas já está chegando um pouco mais perto.
E talvez isso também seja uma forma de confiança.
Porque confiança não precisa ser medida pela distância que alguém permite que você chegue.
Às vezes, confiança é simplesmente quando alguém que antes fugia começa a permanecer por perto.
Sem pressa.
Sem cobrança.
Sem obrigação.
E foi aí que percebi que essa história talvez nem seja somente sobre gatos.
É sobre relações.
Sobre animais que se tornam parceiros de caminhada, sobre companheirismo, sobre afeto e sobre a delicada arte de respeitar o tempo do outro.
Afinal, quantos animais chegam às nossas vidas sem planejamento e acabam ocupando um espaço que nem sabíamos que estava reservado?
E quantas relações humanas também acontecem assim?
Algumas pessoas chegam.
Algumas permanecem.
Algumas passam.
E algumas, silenciosamente, encontram um lugar dentro de nós.
Talvez seja justamente isso que Mel e Arisco estejam me ensinando:
podemos oferecer cuidado sem exigir nada em troca.
Podemos abrir espaço sem obrigar ninguém a entrar.
Podemos estar presentes sem determinar o tempo do outro.
E isso vale também para as relações humanas.
Talvez os animais tenham algo muito importante a nos ensinar:
cada ser tem o seu tempo.
Seis meses depois, ainda não sei se posso dizer que tenho dois gatos.
Talvez eles ainda não sejam “meus”.
Talvez eu seja apenas a pessoa que eles decidiram incluir, aos poucos, na paisagem deles.
E gosto de pensar assim.
Porque algumas relações não começam quando dizemos:
“Eu escolhi você.”
Às vezes, elas começam quando o outro, silenciosamente, responde:
“Eu escolhi ficar.”
E talvez seja essa a verdadeira beleza de alguns encontros.
Talvez eu não tenha adotado dois gatos. Talvez, há seis meses, dois gatos tenham começado a me adotar.
Foi por isso que quis trazer essa história à tona.
Não para encontrar uma resposta definitiva, mas para deixar uma pergunta no ar.
E você, caro leitor?
Já teve a oportunidade de ser escolhido por um gato? Por um felino que, sem pedir licença, cruzou o seu caminho e decidiu permanecer?
Já aconteceu de um animal escolher você para ser seu parceiro, seu amigo, seu companheiro de alguns momentos — ou, quem sabe, de muitos anos?
Talvez tenha sido na sua casa. Talvez na rua. Talvez em um momento inesperado da vida.
Será que fomos nós que encontramos esses animais… ou será que, de alguma maneira que ainda não conseguimos explicar, eles também estavam nos encontrando?
Fica a reflexão.
E fica a pergunta.
Porque, às vezes, a vida não nos apresenta alguém para que nós escolhamos.
Às vezes, ela simplesmente coloca alguém diante de nós e espera para descobrir se teremos sensibilidade para perceber que fomos escolhidos.
Rosana Germano
Boranoistudinho
Tudo junto e misturado.
Colunista Social — Grupo Portal de Notícias (GPN)


