Tudo pode “naqueles” que me fortalecem, diria o poder executivo que faz o que quer na cidade

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“A sensação de que o prefeito tudo pode na cidade e governa a seu bel-prazer, sabendo que sempre terá a conivência da justiça para impor suas vontades.”

Essa frase resume com precisão cirúrgica o sentimento de impotência que toma conta de grande parte da população quando episódios como o de Marília vêm à tona. O que se observa não é um fato isolado, mas sim o sintoma de uma engrenagem política antiga e arraigada, onde os freios e contrapesos que deveriam equilibrar o poder parecem falhar de forma sistemática.

Para entender por que essa percepção de que “tudo é permitido ao Executivo” persiste, vale analisar como as peças desse tabuleiro costumam se mover:

  • O Legislativo de Portas Abertas ao Executivo: Na teoria, a Câmara Municipal tem o dever constitucional de fiscalizar, aprovar ou rejeitar as contas e ações do prefeito. Na prática de muitas cidades do interior, a base governista transforma o parlamento em uma mera extensão do gabinete do prefeito, onde o “diz amém” garante a aprovação rápida de projetos, suplementações e créditos sem um debate profundo sobre o impacto social.
  • A “Venda” do Judiciário e a Formalidade Legal: Como ocorreu no caso dos shows, a Justiça muitas vezes se atém estritamente à legalidade técnica e burocrática dos atos (se houve decreto, se há dotação orçamentária formal, se o rito administrativo foi seguido). Para o cidadão comum, essa tecnicidade soa como cegueira intencional (“a venda que lhe cabe”), pois valida manobras legais que são, no mérito, moralmente indefensáveis diante de um hospital público caindoos aos pedaços.
  • A Impunidade Estrutural: Quando o Executivo consegue blindar suas decisões políticas com o respaldo automático dos vereadores e o aval formal dos tribunais, cria-se uma bolha de impunidade. O gobernante governa voltado para a vitrine — para o holofote do palco, o aplauso momentâneo e o rédito político —, enquanto os problemas estruturais crônicos (saúde, saneamento, previdência) são empurrados com a barriga.

Essa repetição histórica cria um abismo intransponível entre a classe política dirigente e o cidadão comum, que paga impostos caros, sofre nas filas do SUS e assiste a milhões de reais evaporarem em festividades sob a bênção da lei.

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