Na última segunda-feira, a Câmara Municipal de Marília viveu um momento que, se confirmado, exige profunda reflexão sobre o papel da representação política em nossa cidade.
Em uma sessão marcada pela abertura de uma CPI para investigar denúncias gravíssimas de violência doméstica e quebra de decoro envolvendo um parlamentar, o vereador Mauro Cruz utilizou a tribuna para proferir a frase: “Toda mulher nasceu pra morrer de amor”.
O episódio, ocorrido por volta dos 45 minutos da sessão, não pode ser tratado como um simples deslize retórico. Quando um parlamentar utiliza a tribuna — o lugar de maior relevância democrática de uma cidade — para romantizar o sofrimento feminino, ele não apenas falha com seu dever de representar a sociedade; ele reitera uma cultura que historicamente silencia e invalida as vítimas de violência.
A frase, desprovida de qualquer sensibilidade para o contexto em que foi dita, soa como uma banalização perigosa. Em um momento em que a Casa de Leis deveria estar focada em medidas de proteção, rigor ético e na apuração de denúncias sérias de abuso, utilizar uma expressão que remete ao sacrifício amoroso para definir a existência feminina é um retrocesso civilizatório.Violência doméstica não é “amor”.
Violência não é uma fatalidade romântica. Violência é crime, é abuso de poder e é uma violação dos direitos humanos. Transformar a dor de uma mulher em uma ode poética de submissão, no exato instante em que se discute a apuração de um comportamento violento, não é apenas um erro político; é um ato de desrespeito a todas as mulheres que buscam, através das instituições, o amparo que a lei garante.
O decoro parlamentar não se restringe a vestimentas ou protocolos de etiqueta. Ele se manifesta, primordialmente, na postura ética e no respeito à dignidade humana que cada vereador deve sustentar. Espera-se que, diante de temas tão sensíveis quanto o combate à violência contra a mulher, os legisladores atuem com sobriedade e compromisso com os fatos, e não com frases feitas que escondem a realidade cruel da violência de gênero sob uma camada de “poesia” distorcida.
A Câmara de Marília tem o dever de esclarecer o ocorrido. A sociedade não pode aceitar que a tribuna seja usada para reforçar estereótipos que o próprio Legislativo tem o dever de combater. Se o objetivo era o diálogo, a mensagem enviada foi a de que, para muitos, a violência ainda é vista como algo trivial — ou pior, como um destino a ser aceito.


