Professores denunciam distorção do Ideb por governo de SC

Compartilhe:


O Sindicato dos Trabalhadores em Educação de Santa Catarina (Sinte-SC) alertou para uma distorção na apresentação dos dados do Ideb – a avaliação do ensino básico – por parte do governo do estado. O governador Jorginho Mello e a secretária de Educação Luciane Ceretta utilizaram em suas redes sociais números que somam notas das escolas municipais e privadas com as da rede estadual, o que fez os indicadores subirem e darem destaque ao desempenho catarinense.

Tanto Jorginho quanto a secretária divulgaram que Santa Catarina estava em terceiro lugar no indicador para os Anos Iniciais. Jorginho Mello não destacou que o desempenho era apenas em um dos níveis de ensino. Já Ceretta comemorou o que seria um quarto lugar nos Anos Finais e sétimo lugar no Ensino Médio. Porém, se a métrica utilizada for somente o desempenho da rede estadual, gerida pelo governo, as posições mudam para décimo primeiro, nono e décimo lugar.

Além disso, a rede estadual catarinense não bateu a meta estipulada pelo Ministério da Educação (MEC) em nenhum dos níveis, ficando até um ponto distante da nota estipulada para os Anos Finais do Ensino Fundamental e para o Ensino Médio.

Em seu perfil no Instagram, a professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro Giuliana Mordente criticou a ênfase no ranqueamento e na divulgação das notas do Ideb. “E desde quando nota no Ideb é sinônimo de qualidade? Porque o Ideb só mede duas coisas: o desempenho em Português e Matemática e o fluxo de aprovação. E aí, se virou competição, vale tudo, inclusive fraude, porque aí basta você não reprovar ninguém”.

Segundo o Sinte, além da distorção dos números no marketing, o desempenho de Santa Catarina também pode ser questionado pela taxa de aprovação. Um estudo feito pelo sindicato e obtido com exclusividade pela coluna indica que, no Ensino Médio, a taxa de aprovação subiu de 83,6%, em 2023, para 90,1%, em 2025. A entidade registrou um “crescimento atípico” na série histórica.

No Ensino Fundamental, a métrica das aprovações também aumentou e puxou o desempenho da rede estadual, que mesmo assim está abaixo da média nacional e da região sul. Nos Anos Iniciais, o Estado conseguiu atingir a média nacional, mas no início da década de 2010 mantinha posição sempre acima deste número.

“Quando o governo divulga os resultados do Ideb das redes privada, federal e municipal, de forma conjunta, tenta mascarar a deterioração da educação pública estadual e a falta de investimentos na valorização do magistério catarinense”, pontuou a presidente do Sinte, Elivane Secchi, em texto no portal do sindicato.

Questões estruturais

O estudo do sindicato revela que o desempenho no Ideb vem sendo afetado por questões estruturais. Ainda que os indicadores tenham de fato aumentado, Santa Catarina deixou de ser referência nacional em educação ao longo dos últimos anos, com perdas acumuladas que o órgão atribui a métricas que o Ideb não mostra.

A proporção de docentes concursados na rede estadual é a terceira menor do país e o investimento em educação está entre os dez mais baixos, assim como o salário do professor, cuja carreira está entre as mais compactas e o rendimento está entre os menores do Brasil. A proporção de jovens estudando, em Santa Catarina, também preocupa a organização sindical.

“Hoje, Santa Catarina tem a terceira menor participação de docentes efetivos entre os estados brasileiros e, quando desconsideramos os recursos destinados às bolsas em universidades privadas, também está entre os dez estados que menos investem em educação”, pontua Elivane.

Em seu Instagram, a secretária de Educação Luciane Ceretta disse que a conquista do Ideb “reflete o trabalho realizado para fortalecer a aprendizagem dos estudantes”. Também destacou os tópicos que, segundo ela, teriam feito Santa Catarina avançar, entre os quais “investimentos em infraestrutura escolar”, um dos motes das campanhas de marketing do governador por meio do “Programa Escola Boa”.

Já o governador, que constantemente recorre a comparação entre estados para “vender” a imagem de Santa Catarina, escolheu um dado de destaque e ocultou os demais. “Estamos em terceiro lugar no Brasil”, disse, sem registrar que o ranking escolhido envolvia as médias até das instituições particulares e se referia somente a uma etapa de ensino.

A abordagem escolhida pelo governo, cuja rede estadual melhorou o desempenho, mas sem destaque como o propagado pelos gestores, também omitiu o desempenho de outra “vitrine” da gestão: as escolas cívico-militar. Mantidas pelo governo estadual mesmo com a descontinuidade do programa federal, há indicativos de queda no Ideb de 2025 em comparação a 2023 em algumas unidades da rede.

Nos Anos Iniciais, por exemplo, a Henrique Fontes, em Tubarão, perdeu 0,8 na nota final, caindo de 7,3 para 6,5. Já a Pedro Christiano Feddersen, de Blumenau, perdeu 0,5 nos Anos Finais. No Ensino Médio, a Jaldyr Bhering F. da Silva, de São Miguel do Oeste, oscilou 0,3 para baixo.

O que diz a secretaria

A Secretaria de Educação, por meio da assessoria de imprensa, disse que divulgou os dados conforme o padrão do Ministério da Educação, “tanto da rede pública estadual, como do estado como um todo”. As postagens dos gestores, entretanto, não trazem as notas isoladas, mas somadas. “O Ideb é do Estado de Santa Catarina. O Governo de Santa Catarina tem um regime de colaboração com os municípios e ressalta que as médias são muito próximas entre o Estado de Santa Catarina e a rede pública estadual”.

Sobre a discussão levantada pelo Sinte a respeito do fluxo de aprovação, o governo considera equivocada. A secretaria informa que no Ensino Médio o Estado chega a ter a terceira maior taxa de reprovação do país. “O resultado do Ideb é resultado do esforço dos professores e professoras da escola pública, somado à grande mobilização dos estudantes e suas famílias para participação, que passou de 703 unidades participantes em 2023 para 921 em 2025, um crescimento de 31%”.

A respeito das escolas cívico-militar, o órgão assegura que os resultados “mostram uma trajetória predominantemente de melhora nos indicadores em todas as etapas de ensino, com destaque para os anos finais do Ensino Fundamental”, e acrescenta que o trabalho desenvolvido nessas escolas vai além da dimensão pedagógica.

O governo também respondeu os questionamentos da coluna sobre o não cumprimento de nenhuma das metas do MEC para o ciclo de avaliação, destacando que o Estado atingiu sua melhor avaliação da série histórica. “O Estado segue desenvolvendo diversas iniciativas, com foco na aprendizagem dos estudantes, para que os índices sejam ainda melhores nos próximos indicadores”.

Etapa Ideb da rede estadual Como o Estado divulgou
Anos Iniciais 6,3 (11º lugar) 6,7 (3º lugar)
Anos Finais 5,0 (9º lugar) 5,4 (4º lugar)
Ensino Médio 4,3 (10º lugar) 4,5 (7º lugar)

Fonte: MEC/INEP e Sinte-SC, Ideb 2025





Fonte: ICL Notícias

Outras Notícias

Domínio Global Consultoria Web